{"id":5714,"date":"2014-07-15T23:51:08","date_gmt":"2014-07-16T02:51:08","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=5714"},"modified":"2014-07-16T02:18:24","modified_gmt":"2014-07-16T05:18:24","slug":"perder-a-dor-e-sempre-a-mesma","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=5714","title":{"rendered":"Perder: a dor \u00e9 sempre a mesma"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fiquei silenciosa durante todo o per\u00edodo da Copa do Mundo. N\u00e3o senti entusiasmo. Dos jogadores que faziam parte do grupo escolhido por Felip\u00e3o, quase todos eram ilustres desconhecidos para mim, com exce\u00e7\u00e3o dos mais famosos: Neymar, David Lu\u00eds, Maicon, Oscar e J\u00falio Cesar. Mesmo assim vi todos os jogos, torci, senti o cora\u00e7\u00e3o disparar num misto de alegria e decep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sempre apaixonada pela Sele\u00e7\u00e3o Brasileira, guardo muitas recorda\u00e7\u00f5es das copas; umas tristes, outras muito boas. O resultado que mais me entristeceu, at\u00e9 a semana passada, foi o da copa de 1998, mas depois da goleada da Alemanha (7 x 1) e dos 3 a zero da Holanda, al\u00e9m do (bom) desempenho das diversas equipes em campo, a dor passou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje encontrei uma cr\u00f4nica de Drummond escrita em 1982, quando o Brasil perdeu para a It\u00e1lia e cheguei \u00e0 conclus\u00e3o de que o texto escrito h\u00e1 32 anos, continua atual\u00edssimo, como se tivesse sido escrito em 2014. O tempo passa, os personagens e o cen\u00e1rio mudam, mas o comportamento das pessoas \u00e9 o mesmo em todos os campeonatos.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"center\"><strong>Perder, ganhar, viver<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vi gente chorando na rua, quando o juiz apitou o final do jogo perdido; vi homens e mulheres pisando com \u00f3dio os pl\u00e1sticos verde-amarelos que at\u00e9 minutos antes eram sagrados; vi b\u00eabados inconsol\u00e1veis que j\u00e1 n\u00e3o sabiam por que n\u00e3o achavam consolo na bebida; vi rapazes e mo\u00e7as festejando a derrota para n\u00e3o deixarem de festejar qualquer coisa, pois seus cora\u00e7\u00f5es estavam programados para a alegria; vi o t\u00e9cnico incans\u00e1vel e teimoso da Sele\u00e7\u00e3o xingado de bandido e queimado vivo sob a apar\u00eancia de um boneco, enquanto o jogador que errara muitas vezes ao chutar em gol era declarado o \u00faltimo dos traidores da p\u00e1tria; vi a not\u00edcia do suicida do Cear\u00e1 e dos mortos do cora\u00e7\u00e3o por motivo do fracasso esportivo; vi a dor dissolvida em u\u00edsque escoc\u00eas da classe m\u00e9dia alta e o surdo clamor de desespero dos pequeninos, pela mesma causa; vi o garot\u00e3o mudar o g\u00eanero das palavras, acusando a mina de p\u00e9-fria; vi a decep\u00e7\u00e3o controlada do presidente, que se preparava, como torcedor n\u00famero um do pa\u00eds, para viver o seu grande momento de euforia pessoal e nacional, depois de curtir tantas desilus\u00f5es de governo; vi os candidatos do partido da situa\u00e7\u00e3o aturdidos por um malogro que lhes roubava um trunfo poderoso para a campanha eleitoral; vi as oposi\u00e7\u00f5es divididas, unificadas na mesma perplexidade diante da cat\u00e1strofe que levar\u00e1 talvez o povo a se desencantar de tudo, inclusive das elei\u00e7\u00f5es; vi a afli\u00e7\u00e3o dos produtores e vendedores de bandeirinhas, fl\u00e2muIas e s\u00edmbolos diversos do esperado e exigido t\u00edtulo de campe\u00f5es do mundo pela quarta vez, e j\u00e1 agora destinados \u00e0 ironia do lixo; vi a tristeza dos varredores da limpeza p\u00fablica e dos faxineiros de edif\u00edcios, removendo os destro\u00e7os da esperan\u00e7a; vi tanta coisa, senti tanta coisa nas almas&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chego \u00e0 conclus\u00e3o de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto n\u00e3o a desejarmos nem a admitirmos previamente, \u00e9 afinal instrumento de renova\u00e7\u00e3o da vida. Tanto quanto a vit\u00f3ria estabelece o jogo dial\u00e9tico que constitui o pr\u00f3prio modo de estar no mundo. Se uma sucess\u00e3o de derrotas \u00e9 arrasadora, tamb\u00e9m a sucess\u00e3o constante de vit\u00f3rias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados p\u00f3s-voluptuosos, que inutiliza o indiv\u00edduo e a comunidade atuante. Perder implica remo\u00e7\u00e3o de detritos: come\u00e7ar de novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certamente, fizemos tudo para ganhar esta caprichosa Copa do Mundo. Mas ser\u00e1 suficiente fazer tudo, e exigir da sorte um resultado infal\u00edvel? N\u00e3o \u00e9 mais sensato atribuir ao acaso, ao imponder\u00e1vel, at\u00e9 mesmo ao absurdo, um poder de transforma\u00e7\u00e3o das coisas, capaz de anular os c\u00e1lculos mais cient\u00edficos? Se a Sele\u00e7\u00e3o fosse \u00e0 Espanha, terra de castelos m\u00edticos, apenas para pegar o caneco e traz\u00ea-lo na mala, como propriedade exclusiva e inalien\u00e1vel do Brasil, que m\u00e9rito haveria nisso? Na realidade, n\u00f3s fomos l\u00e1 pelo gosto do incerto, do dif\u00edcil, da fantasia e do risco, e n\u00e3o para recolher um objeto roubado. A verdade \u00e9 que n\u00e3o voltamos de m\u00e3os vazias porque n\u00e3o trouxemos a ta\u00e7a. Trouxemos alguma coisa boa e palp\u00e1vel, conquista do esp\u00edrito de competi\u00e7\u00e3o. Suplantamos quatro sele\u00e7\u00f5es igualmente ambiciosas e perdemos para a quinta. A It\u00e1lia n\u00e3o tinha obriga\u00e7\u00e3o de perder para o nosso g\u00eanio futebol\u00edstico. Em peleja de igual para igual, a sorte n\u00e3o nos contemplou. Paci\u00eancia, n\u00e3o vamos transformar em desastre nacional o que foi apenas uma experi\u00eancia, como tantas outras, da volubilidade das coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Perdendo, ap\u00f3s o emocionalismo das l\u00e1grimas, readquirimos ou adquirimos, na maioria das cabe\u00e7as, o senso da modera\u00e7\u00e3o, do real contradit\u00f3rio, mas rico de possibilidades, a verdadeira dimens\u00e3o da vida. N\u00e3o somos invenc\u00edveis. Tamb\u00e9m n\u00e3o somos uns pobres diabos que jamais atingir\u00e3o a grandeza, este valor t\u00e3o relativo, com tend\u00eancia a evaporar-se. Eu gostaria de passar a m\u00e3o na cabe\u00e7a de Tel\u00ea Santana e de seus jogadores, reservas e reservas de reservas, como Roberto Dinamite, o viajante n\u00e3o utilizado, e dizer-lhes, com esse gesto, o que em palavras seria enf\u00e1tico e meio bobo. Mas o gesto vale por tudo, e bem o compreendemos em sua do\u00e7ura solid\u00e1ria. Ora, o Tel\u00ea! Ora, os atletas! Ora, a sorte! A Copa do Mundo de 82 acabou para n\u00f3s, mas o mundo n\u00e3o acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E h\u00e1 um lindo sol l\u00e1 fora, o sol de n\u00f3s todos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E agora, amigos torcedores, que tal a gente come\u00e7ar a trabalhar, que o ano j\u00e1 est\u00e1 na segunda metade?<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\">Carlos Drummond de Andrade, Jornal do Brasil, 21 de junho de 1982.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Fiquei silenciosa durante todo o per\u00edodo da Copa do Mundo. N\u00e3o senti entusiasmo. 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