{"id":5993,"date":"2015-02-01T15:55:24","date_gmt":"2015-02-01T18:55:24","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=5993"},"modified":"2015-02-01T15:55:24","modified_gmt":"2015-02-01T18:55:24","slug":"domingo-com-a-sabedoria-de-rubem-alves","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=5993","title":{"rendered":"Domingo com a sabedoria de Rubem Alves"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">&#8220;Milho de pipoca que n\u00e3o passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A Pipoca<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center; padding-left: 210px;\">Rubem Alves<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A culin\u00e1ria me fascina. De vez em quando eu at\u00e9 me at\u00e9 atrevo a cozinhar. Mas o fato \u00e9 que sou mais competente com as palavras do que com as panelas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso tenho mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-me a algo que poderia ter o nome de &#8220;culin\u00e1ria liter\u00e1ria&#8221;. J\u00e1 escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo da cozinha: cebolas, ora-pro-nobis, picadinho de carne com tomate feij\u00e3o e arroz, bacalhoada, sufl\u00eas, sopas, churrascos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cheguei mesmo a dedicar metade de um livro po\u00e9tico-filos\u00f3fico a uma medita\u00e7\u00e3o sobre o filme <i>A Festa de Babette<\/i> que \u00e9 uma celebra\u00e7\u00e3o da comida como ritual de feiti\u00e7aria. Sabedor das minhas limita\u00e7\u00f5es e compet\u00eancias, nunca escrevi como chef. Escrevi como fil\u00f3sofo, poeta, psicanalista e te\u00f3logo \u2014 porque a culin\u00e1ria estimula todas essas fun\u00e7\u00f5es do pensamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As comidas, para mim, s\u00e3o entidades on\u00edricas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pipoca, milho mirrado, gr\u00e3os redondos e duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimens\u00f5es metaf\u00edsicas ou psicanal\u00edticas. Entretanto, dias atr\u00e1s, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas ideias come\u00e7aram a estourar como pipoca. Percebi, ent\u00e3o, a rela\u00e7\u00e3o metaf\u00f3rica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevis\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pipoca se revelou a mim, ent\u00e3o, como um extraordin\u00e1rio objeto po\u00e9tico. Po\u00e9tico porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se p\u00f4s a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela. Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca tem sentido religioso? Pois tem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para os crist\u00e3os, religiosos s\u00e3o o p\u00e3o e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, s\u00f3 vida, sem alegria, n\u00e3o \u00e9 vida&#8230;). P\u00e3o e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir juntas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembrei-me, ent\u00e3o, de li\u00e7\u00e3o que aprendi com a M\u00e3e Stella, s\u00e1bia poderosa do Candombl\u00e9 baiano: que a pipoca \u00e9 a comida sagrada do Candombl\u00e9&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pipoca \u00e9 um milho mirrado, subdesenvolvido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos gra\u00fados aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato \u00e9 que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca n\u00e3o podem competir com os milhos normais. N\u00e3o sei como isso aconteceu, mas o fato \u00e9 que houve algu\u00e9m que teve a ideia de debulhar as espigas e coloc\u00e1-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os gr\u00e3os amolecessem e pudessem ser comidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Havendo fracassado a experi\u00eancia com \u00e1gua, tentou a gordura. O que aconteceu, ningu\u00e9m jamais poderia ter imaginado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Repentinamente os gr\u00e3os come\u00e7aram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordin\u00e1rio era o que acontecia com eles: os gr\u00e3os duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que at\u00e9 as crian\u00e7as podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, ent\u00e3o, de uma simples opera\u00e7\u00e3o culin\u00e1ria, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crian\u00e7as. \u00c9 muito divertido ver o estouro das pipocas!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o que \u00e9 que isso tem a ver com o Candombl\u00e9? \u00c9 que a transforma\u00e7\u00e3o do milho duro em pipoca macia \u00e9 s\u00edmbolo da grande transforma\u00e7\u00e3o porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca n\u00e3o \u00e9 o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos n\u00f3s: duros, quebra-dentes, impr\u00f3prios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa \u2014 voltar a ser crian\u00e7as! Mas a transforma\u00e7\u00e3o s\u00f3 acontece pelo poder do fogo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Milho de pipoca que n\u00e3o passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim acontece com a gente. As grandes transforma\u00e7\u00f5es acontecem quando passamos pelo fogo. Quem n\u00e3o passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. S\u00e3o pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. S\u00f3 que elas n\u00e3o percebem. Acham que o seu jeito de ser \u00e9 o melhor jeito de ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, de repente, vem o fogo. O fogo \u00e9 quando a vida nos lan\u00e7a numa situa\u00e7\u00e3o que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. P\u00e2nico, medo, ansiedade, depress\u00e3o \u2014 sofrimentos cujas causas ignoramos. H\u00e1 sempre o recurso aos rem\u00e9dios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, l\u00e1 dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela n\u00e3o pode imaginar destino diferente. N\u00e3o pode imaginar a transforma\u00e7\u00e3o que est\u00e1 sendo preparada. A pipoca n\u00e3o imagina aquilo de que ela \u00e9 capaz. A\u00ed, sem aviso pr\u00e9vio, pelo poder do fogo, a grande transforma\u00e7\u00e3o acontece: PUF!! \u2014 e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. \u00c9 a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na simbologia crist\u00e3 o milagre do milho de pipoca est\u00e1 representado pela morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo: a ressurrei\u00e7\u00e3o \u00e9 o estouro do milho de pipoca. \u00c9 preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Morre e transforma-te!&#8221; \u2014 dizia Goethe.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Minas, todo mundo sabe o que \u00e9 piru\u00e1. Falando sobre os piru\u00e1s com os paulistas, descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era goza\u00e7\u00e3o minha, que piru\u00e1 \u00e9 palavra inexistente. Cheguei a ser for\u00e7ado a me valer do Aur\u00e9lio para confirmar o meu conhecimento da l\u00edngua. Piru\u00e1 \u00e9 o milho de pipoca que se recusa a estourar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Meu amigo William, extraordin\u00e1rio professor pesquisador da Unicamp, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explica\u00e7\u00e3o cient\u00edfica para os piru\u00e1s. Mas, no mundo da poesia, as explica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas n\u00e3o valem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por exemplo: em Minas &#8220;piru\u00e1&#8221; \u00e9 o nome que se d\u00e1 \u00e0s mulheres que n\u00e3o conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: &#8220;Fiquei piru\u00e1!&#8221; Mas acho que o poder metaf\u00f3rico dos piru\u00e1s \u00e9 maior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Piru\u00e1s s\u00e3o aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que n\u00e3o pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ignoram o dito de Jesus: &#8220;Quem preservar a sua vida perd\u00ea-la-\u00e1&#8221;. A sua presun\u00e7\u00e3o e o seu medo s\u00e3o a dura casca do milho que n\u00e3o estoura. O destino delas \u00e9 triste. V\u00e3o ficar duras a vida inteira. N\u00e3o v\u00e3o se transformar na flor branca macia. N\u00e3o v\u00e3o dar alegria para ningu\u00e9m. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo a panela ficam os piru\u00e1s que n\u00e3o servem para nada. Seu destino \u00e9 o lixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto \u00e0s pipocas que estouraram, s\u00e3o adultos que voltaram a ser crian\u00e7as e que sabem que a vida \u00e9 uma grande brincadeira&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Nunca imaginei que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu&#8221;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Texto extra\u00eddo do livro <i>O Amor Que Acende a Lua<\/i>, lan\u00e7ado em 1999.<\/p>\n<p>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &#8220;Milho de pipoca que n\u00e3o passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre&#8221;. A Pipoca Rubem Alves A culin\u00e1ria me fascina. De vez em quando eu at\u00e9 me at\u00e9 atrevo a cozinhar. 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