{"id":6008,"date":"2015-02-19T13:34:18","date_gmt":"2015-02-19T16:34:18","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=6008"},"modified":"2015-02-19T13:34:18","modified_gmt":"2015-02-19T16:34:18","slug":"julio-cesar-um-brasileiro-na-porta-do-hospital-sem-atendimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=6008","title":{"rendered":"J\u00falio C\u00e9sar, um brasileiro: na porta do hospital, sem atendimento"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/A-foto-blog-marcelo-auler.png\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6009\" alt=\"A foto blog-marcelo-auler\" src=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/A-foto-blog-marcelo-auler.png\" width=\"960\" height=\"540\" srcset=\"https:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/A-foto-blog-marcelo-auler.png 960w, https:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/A-foto-blog-marcelo-auler-300x168.png 300w, https:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/A-foto-blog-marcelo-auler-500x281.png 500w\" sizes=\"auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fonte: Blog do M\u00e1rio Magalh\u00e3es<\/p>\n<p>18\/02\/2015 12:51<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcelo Auler, um dos mestres brasileiros do g\u00eanero mais nobre do jornalismo, a reportagem, publicou no Facebook o relato abaixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Enquanto muitos jornalistas fingiam n\u00e3o saber que o desfile da Beija-Flor foi pago com dinheiro de uma ditadura sanguin\u00e1ria, o bravo Marcelo Auler contava a vida como ela \u00e9.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Na porta do hospital Miguel Couto, mas sem atendimento<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"padding-left: 270px;\">Por Marcelo Auler<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na emerg\u00eancia do Hospital Municipal Miguel Couto, no s\u00e1bado \u00e0 noite, em pleno carnaval carioca, havia um entre e sai de pessoas. Na maioria, foli\u00f5es v\u00edtimas de pequenos acidentes durante a folia momesca. Chegavam em grupos, alguns mais falantes que outros, os jovens nitidamente \u201calegres\u201d por conta do teor alc\u00f3olico, promoviam algazarra maior, com um volume de voz mais alto. Mas, mesmo entre os acidentados, predominava o esp\u00edrito alegre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O curioso \u00e9 que no entra e sa\u00ed ningu\u00e9m reparava em um senhor, aparentando mais do que os seus 52 anos, que permanecia sentado nos primeiros degraus da escada de acesso ao pr\u00e9dio, na Rua Bartolomeu Mitre, no Leblon, zona sul do Rio. Tratava-se de mais um dos cidad\u00e3os invis\u00edveis que circulam entre n\u00f3s sem que os reparemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu mesmo, que ali aguardava not\u00edcias de uma paciente, embora j\u00e1 o tivesse visto, s\u00f3 me interessei por ele quando, com a voz baixa e de forma educada perguntou-me se poderia encher sua garrafinha de \u00e1gua dentro hospital.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao entregar-lhe uma nova garrafa d\u2019\u00e1gua, soube que estava por ali h\u00e1 dois dias, queixando-se de febre e apresentando uma ferida na perna direita da qual, na penumbra da noite, e de longe, me pareceu escorrer pus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo suas explica\u00e7\u00f5es, procurou o hospital, na sexta-feira, em busca de atendimento, mas n\u00e3o mereceu qualquer aten\u00e7\u00e3o m\u00e9dica. Na triagem o teriam encaminhado para a UPA de Botafogo, sem se preocuparem se ele teria como transpor os cerca de 6 quil\u00f4metros que separam o hospital da Unidade de Pronto Atendimento. N\u00e3o tinha. Com apenas R$ 5,00 no bolso, confessou o medo de gastar o dinheiro na passagem de ida \u2013 R$ 3,40 \u2013 e depois n\u00e3o ter como voltar com o trocado que restaria. Por ali permaneceu, dormindo na porta do Pronto Socorro, sem ser incomodado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 mais tranquilo com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 situa\u00e7\u00e3o da paciente que eu acompanhava, procurei entender o que se passava com J\u00falio C\u00e9sar Saniba Peralva, um mineiro de Belo Horizonte, solteiro, nascido em maio de 1962, que segundo contou, por 26 anos foi motorista de \u00f4nibus, at\u00e9 que uma \u201cpneumonia mal tratada\u201d o \u201cencostou\u201d no INSS (Beneficio n\u00famero 700.985.054-3). Desde dezembro recebe R$ 788,00 mensais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diz morar em um quarto na comunidade do Pav\u00e3o-Pav\u00e3ozinho, em Copacabana. Um irm\u00e3o reside em outra casa na mesma comunidade. O resto da fam\u00edlia, como definiu, \u201cest\u00e1 espalhada\u201d. A ferida na perna ele creditou a um tombo, no caminho do hospital, em busca de atendimento para a febre que sentia e o deixava sem for\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Miguel Couto, por\u00e9m, n\u00e3o mereceu qualquer atendimento. A explica\u00e7\u00e3o do seguran\u00e7a \u00e9 de que ali n\u00e3o tem atendimento ambulatorial, apenas emergencial. Nem mesmo um analg\u00e9sico qualquer lhe foi dado para diminuir o desconforto. Pelo jeito, o maior hospital p\u00fablico da Zona Sul n\u00e3o possui tamb\u00e9m qualquer atendimento de assist\u00eancia social, a ponto de dispensarem um cidad\u00e3o com aparente mal-estar sem qualquer preocupa\u00e7\u00e3o de como ele chegar\u00e1 ao local indicado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tampouco m\u00e9dicos, funcion\u00e1rios, seguran\u00e7as e os pr\u00f3prios pacientes que recorrem ao Pronto Socorro se preocuparam com a figura que passou o dia sentado na escada e, \u00e0 noite, recolheu-se em um pequeno corredor entre a parede do pr\u00e9dio e um canteiro sem plantas. Usando sua sacola de pl\u00e1stico como travesseiro, dormiu da noite de sexta-feira (dia13 de fevereiro) para s\u00e1bado e pretendia fazer o mesmo naquela noite seguinte, apesar de ao deixar o hospital ter lhe inteirado a passagem de \u00f4nibus at\u00e9 Botafogo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pelo jeito, n\u00e3o foi a primeira vez que J\u00falio C\u00e9sar foi dispensado de um atendimento. Nos seus pertences estava um encaminhamento concedido pela CAP 2.1 endere\u00e7ando-o a um tratamento cl\u00ednico no Centro Municipal de Sa\u00fade Jo\u00e3o Barros Barreto, Rua Tenreiro Aranha s\/n Copacabana. N\u00e3o tinha data, nem especificava quem o endere\u00e7ava, al\u00e9m do c\u00f3digo CAP 2.1. (Foto em anexo)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na p\u00e1gina da Secretaria Municipal de Sa\u00fade (SMS) da Prefeitura do Rio verifica-se que AP 2.1 podem ser duas coisas distintas. Uma \u00e9 o Centro de Aten\u00e7\u00e3o Psicossocial (CAPS) III Maria do Socorro Santos, na estrada da G\u00e1vea 520. Sua \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o abrange Rocinha, Vidigal, S\u00e3o Conrado e G\u00e1vea (AP 2.1). Trata-se de unidade especializada em sa\u00fade mental para tratamento e reinser\u00e7\u00e3o social de pessoas com transtorno mental grave e persistente. Ou seja, se J\u00falio C\u00e9sar esteve ali, ele deve ter algum problema mental. Mas ainda assim foi deixado \u00e0 pr\u00f3pria sorte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas h\u00e1 tamb\u00e9m refer\u00eancia ao Centro M\u00e9dico de Sa\u00fade Pindaro de C. Rodrigues \u2013 AP 21, na Avenida Padrel Leonel Franca, na G\u00e1vea. Neste Centro M\u00e9dico, segundo a p\u00e1gina da SMS, s\u00e3o feitas consultas individuais e coletivas; visita domiciliar; sa\u00fade bucal; vacina\u00e7\u00e3o; pr\u00e9-natal; exames de raios-x; eletrocardiograma; exames laboratoriais: sangue, urina e fezes; ultrassonografia; curativos; planejamento familiar; vigil\u00e2ncia em sa\u00fade; teste do pezinho; tratamento e acompanhamento de pacientes diab\u00e9ticos e hipertensos. Em sendo ali que J\u00falio C\u00e9sar foi atendido, n\u00e3o h\u00e1 explica\u00e7\u00e3o plaus\u00edvel para envi\u00e1-lo a outra unidade de sa\u00fade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O atendimento m\u00e9dico que ele buscava n\u00e3o lhe foi dado, mas durante o tempo em que ficou na porta do Hospital Miguel Couto, J\u00falio C\u00e9sar s\u00f3 tinha merecido a solidariedade de uma \u00fanica pessoa. Trata-se de um morador de rua, alto e magro, pela sua descri\u00e7\u00e3o, que cuida das motos que estacionam no outro lado da Avenida Bartolomeu Mitre. Foi dele que recebeu o \u00fanico alimento do dia: metade de um prato de macarr\u00e3o com carne moida, que o guardador de motos dividiu com o desconhecido. Pelo menos entre eles a solidariedade existe e, como se trata de dois moradores da cidade, conclui-se que nem tudo est\u00e1 perdido na chamada Cidade Maravilhosa: ainda restam pessoas a se preocuparem com quem est\u00e1 ao seu lado, embora sejam dois necessitados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; &nbsp; Fonte: Blog do M\u00e1rio Magalh\u00e3es 18\/02\/2015 12:51 Marcelo Auler, um dos mestres brasileiros do g\u00eanero mais nobre do jornalismo, a reportagem, publicou no Facebook o relato abaixo. 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