{"id":6112,"date":"2015-05-22T15:58:35","date_gmt":"2015-05-22T18:58:35","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=6112"},"modified":"2015-05-22T15:58:35","modified_gmt":"2015-05-22T18:58:35","slug":"uma-cronica-de-clarice-lispector","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=6112","title":{"rendered":"Uma cr\u00f4nica de Clarice Lispector"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"center\"><strong>Uma Galinha<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 360px;\" align=\"right\"><b>Clarice Lispector<\/b><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque n\u00e3o passava de nove horas da manh\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parecia calma. Desde s\u00e1bado encolhera-se num canto da cozinha. N\u00e3o olhava para ningu\u00e9m, ningu\u00e9m olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade com indiferen\u00e7a, n\u00e3o souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um anseio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto v\u00f4o, inchar o peito e, em dois ou tr\u00eas lances, alcan\u00e7ar a murada do terra\u00e7o. Um instante ainda vacilou \u2014 o tempo da cozinheira dar um grito \u2014 e em breve estava no terra\u00e7o do vizinho, de onde, em outro v\u00f4o desajeitado, alcan\u00e7ou um telhado. L\u00e1 ficou em adorno deslocado, hesitando ora num, ora noutro p\u00e9. A fam\u00edlia foi chamada com urg\u00eancia e consternada viu o almo\u00e7o junto de uma chamin\u00e9. O dono da casa, lembrando-se da dupla necessidade de fazer esporadicamente algum esporte e de almo\u00e7ar, vestiu radiante um cal\u00e7\u00e3o de banho e resolveu seguir o itiner\u00e1rio da galinha: em pulos cautelosos alcan\u00e7ou o telhado onde esta, hesitante e tr\u00eamula, escolhia com urg\u00eancia outro rumo. A persegui\u00e7\u00e3o tornou-se mais intensa. De telhado a telhado foi percorrido mais de um quarteir\u00e3o da rua. Pouco afeita a uma luta mais selvagem pela vida, a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar, sem nenhum aux\u00edlio de sua ra\u00e7a. O rapaz, por\u00e9m, era um ca\u00e7ador adormecido. E por mais \u00ednfima que fosse a presa o grito de conquista havia soado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sozinha no mundo, sem pai nem m\u00e3e, ela corria, arfava, muda, concentrada. \u00c0s vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E ent\u00e3o parecia t\u00e3o livre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Est\u00fapida, t\u00edmida e livre. N\u00e3o vitoriosa como seria um galo em fuga. Que \u00e9 que havia nas suas v\u00edsceras que fazia dela um ser? A galinha \u00e9 um ser. \u00c9 verdade que n\u00e3o se pode\u00adria contar com ela para nada. Nem ela pr\u00f3pria contava consigo, como o galo cr\u00ea na sua crista. Sua \u00fanica vantagem \u00e9 que havia tantas galinhas que morrendo uma surgiria no mesmo instante outra t\u00e3o igual como se fora a mesma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Afinal, numa das vezes em que parou para gozar sua fuga, o rapaz alcan\u00e7ou-a. Entre gritos e penas, ela foi presa. Em seguida carregada em triunfo por uma asa atrav\u00e9s das telhas e pousada no ch\u00e3o da cozinha com certa viol\u00eancia. Ainda tonta, sacudiu-se um pouco, em cacarejos roucos e indecisos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi ent\u00e3o que aconteceu. De pura afoba\u00e7\u00e3o a galinha p\u00f4s um ovo. Surpreendida, exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade, pare\u00adcia uma velha m\u00e3e habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou, respirando, abotoando e desabotoando os olhos. Seu cora\u00e7\u00e3o, t\u00e3o pequeno num prato, solevava e abaixava as penas, enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo. S\u00f3 a menina estava perto e assistiu a tudo estarrecida. Mal por\u00e9m conseguiu desvencilhar-se do acontecimento, despregou-se do ch\u00e3o e saiu aos gritos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Mam\u00e3e, mam\u00e3e, n\u00e3o mate mais a galinha, ela p\u00f4s um ovo! ela quer o nosso bem!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos correram de novo \u00e0 cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente. Esquentando seu filho, esta n\u00e3o era nem suave nem arisca, nem alegre, nem triste, n\u00e3o era nada, era uma galinha. O que n\u00e3o sugeria nenhum sentimento especial. O pai, a m\u00e3e e a filha olhavam j\u00e1 h\u00e1 algum tempo, sem propriamente um pensamento qualquer. Nunca ningu\u00e9m acariciou uma cabe\u00e7a de galinha. O pai afinal decidiu-se com certa brusquid\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Se voc\u00ea mandar matar esta galinha nunca mais comerei galinha na minha vida!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u2014 Eu tamb\u00e9m! jurou a menina com ardor. A m\u00e3e, cansada, deu de ombros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inconsciente da vida que lhe fora entregue, a galinha passou a morar com a fam\u00edlia. A menina, de volta do col\u00e9gio, jogava a pasta longe sem interromper a corrida para a cozinha. O pai de vez em quando ainda se lembrava: &#8220;E dizer que a obriguei a correr naquele estado!&#8221; A galinha tornara-se a rainha da casa. Todos, menos ela, o sabiam. Continuou entre a cozinha e o terra\u00e7o dos fundos, usando suas duas capacidades: a de apatia e a do sobressalto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas quando todos estavam quietos na casa e pareciam t\u00ea-la esquecido, enchia-se de uma pequena coragem, resqu\u00edcios da grande fuga \u2014 e circulava pelo ladrilho, o corpo avan\u00e7ando atr\u00e1s da cabe\u00e7a, pausado como num campo, embora a pequena cabe\u00e7a a tra\u00edsse: mexendo-se r\u00e1pida e vibr\u00e1til, com o velho susto de sua esp\u00e9cie j\u00e1 mecanizado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma vez ou outra, sempre mais raramente, lembrava de novo a galinha que se recortara contra o ar \u00e0 beira do telhado, prestes a anunciar. Nesses momentos enchia os pulm\u00f5es com o ar impuro da cozinha e, se fosse dado \u00e0s f\u00eameas cantar, ela n\u00e3o cantaria mas ficaria muito mais contente. Embora nem nesses instantes a express\u00e3o de sua vazia cabe\u00e7a se alterasse. Na fuga, no descanso, quando deu \u00e0 luz ou bicando milho \u2014 era uma cabe\u00e7a de galinha, a mesma que fora desenhada no come\u00e7o dos s\u00e9culos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/A-galinha-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6113\" alt=\"A galinha 1\" src=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2015\/05\/A-galinha-1.jpg\" width=\"160\" height=\"219\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>Texto extra\u00eddo do livro \u201c<\/i>La\u00e7os de Fam\u00edlia<i>\u201d, Editora Rocco \u2014 Rio de Janeiro, 1998, p\u00e1g. 30. Selecionado por \u00cdtalo Moriconi, figura na publica\u00e7\u00e3o \u201c<\/i>Os Cem Melhores Contos Brasileiros do S\u00e9culo<i>\u201d.<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Uma Galinha Clarice Lispector Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque n\u00e3o passava de nove horas da manh\u00e3. Parecia calma. Desde s\u00e1bado encolhera-se num canto da cozinha. N\u00e3o olhava para ningu\u00e9m, ningu\u00e9m olhava para ela. 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