{"id":6243,"date":"2016-09-08T23:30:42","date_gmt":"2016-09-09T02:30:42","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=6243"},"modified":"2016-09-09T06:59:39","modified_gmt":"2016-09-09T09:59:39","slug":"epifanio-nunes-da-silva-ou-manuel-nunes-dos-reis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=6243","title":{"rendered":"Epif\u00e2nio Nunes da Silva ou Manuel Nunes dos Reis?"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><i>Leni David<\/i><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><i>\u00a0<\/i>N\u00e3o importa. O essencial \u00e9 que ele foi e continua sendo o \u201cTio Pif\u00e2nio\u201d, rei negro das crian\u00e7as daquela rua, o maior contador de historias da cidade!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Chega negrada!!! Era um apelo estridente e alegre acompanhado de uma gargalhada. Todos corriam na dire\u00e7\u00e3o do apelo, at\u00e9 mesmo as empregadas e as crian\u00e7as da vizinhan\u00e7a. E como era bom correr, com todas as for\u00e7as, chegar em primeiro lugar e receber como recompensa, um bago de jaca, um punhado de amendoim e um peda\u00e7o de rapadura; quanta folia, risos e algazarras Epif\u00e2nio tacha para n\u00f3s. Como era bom e como sinto saudades daquele tempo!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9ramos dez irm\u00e3os e a nossa meninice corria mansa e despreocupada. Espalh\u00e1vamos alegria pelo quintal, espa\u00e7o de liberdade, de alegria, gangorras, minas e esconderijos; as pessoas mais velhas se contentavam em nos observar de longe e nem nos d\u00e1vamos conta de que haviam olhos voltados para n\u00f3s. Jog\u00e1vamos castanha, bolas de gude, pul\u00e1vamos macaco e faz\u00edamos &#8220;cozidos&#8221; nos dias de feira. Mas todo esse mundo encantado era esquecido quando Epif\u00e2nio chegava no port\u00e3o da casa grande da rua da Aurora e nos chamava, com toda a for\u00e7a dos seus pulm\u00f5es: Chega negrada! N\u00e3o havia quem resistisse \u00e0quele chamado. Sab\u00edamos que na segunda-feira, dia da feira-livre da cidade, ele recebia o pagamento da semana e a qualquer momento chegaria sorrindo, falando alto, repartindo del\u00edcias que trazia escondidas nos bolsos do palet\u00f3 e no bocapiu de palha, entre risos, trope\u00e7os, numa grande algazarra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lembro-me dele como se ainda estivesse aqui, diante de mim; tinha estatura m\u00e9dia, era negro, bem negro, olhos pequenos e sorridentes; os cabelos encarapinhados, cortados bem curtos, j\u00e1 estavam matizados de fios brancos, mas n\u00e3o escondiam o seu ar bonach\u00e3o e maroto. Quando falava, tinha um jeito de virar o rosto para o lado, levantar o chap\u00e9u e sorrir, co\u00e7ando a cabe\u00e7a, sempre exagerando no tom da voz e nas gargalhadas sonoras. Usava cal\u00e7as pretas, de &#8220;casimira&#8221;, cal\u00e7as velhas e desbotadas, que deviam ter pertencido ao meu av\u00f4; um velho palet\u00f3, seu companheiro encena no inverno e no ver\u00e3o e um velho chap\u00e9u de baeta amarrotado. Epif\u00e2nio n\u00e3o resistia a uma &#8220;cachacinha&#8221; e a um &#8220;triel\u00e9trico&#8221;. Bebia e dan\u00e7ava durante os tr\u00eas dias da Micareta e, na quarta-feira, acordava queixando-se de dor nos rins e no f\u00edgado. Epif\u00e2nio era analfabeto; jamais lhe ensinaram a ler e a escrever; entretanto, apesar de n\u00e3o ser eleitor, participava ativamente de todas as campanhas pol\u00edticas, discutindo e argumentando, com seriedade, e defendia os seus candidatos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Epif\u00e2nio se dizia irm\u00e3o do meu av\u00f4; a sua m\u00e3e que era escrava ama de leite, amamentara os dois; ent\u00e3o, Epif\u00e2nio &#8220;exigia&#8221; que o cham\u00e1ssemos de tio. Meu av\u00f4 e ele foram criados juntos na ro\u00e7a e cresceram amigos, mas com destinos diferentes. Mesmo a casa onde morava, n\u00e3o lhe pertencia. Sabia trabalhar e fazia tudo que lhe ordenavam: cavava fontes, lavava autom\u00f3veis, era ajudante de pedreiro, carregador e nos fins de semana trabalhava na ro\u00e7a, plantando milho e feij\u00e3o. Entretanto, a sua grande especialidade era contar casos, lindas hist\u00f3rias que enfeitaram as nossas vidas de crian\u00e7as. Ele fechava os olhos e as palavras brotavam da sua boca como riacho correndo. N\u00f3s, o seu audit\u00f3rio, permanec\u00edamos im\u00f3veis, quase sem respirar, bebendo as palavras como se fossem uma po\u00e7\u00e3o m\u00e1gica. Conhec\u00edamos as hist\u00f3rias de Trist\u00e3o e Isolda, dos Cavaleiros da T\u00e1vola Redonda, al\u00e9m das lendas da Gurunga, que s\u00f3 ele conhecia e as hist\u00f3rias de assombra\u00e7\u00e3o. Quando ficava cansado, levantava alvoro\u00e7ado e recitava em voz alta:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 60px;\">\u00ab\u00a0Era um dia,<br \/>\n<span style=\"font-weight: 300;\">um dia foi,<br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 300;\">quem n\u00e3o tem cavalo<br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 300;\">monta no boi&#8230;<br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 300;\">Entrou por uma porta,<br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 300;\">saiu pela outra<br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 300;\">quem quiser,<br \/>\n<\/span><span style=\"font-weight: 300;\">que conte outra&#8230;\u00a0\u00bb<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0E sa\u00eda correndo, a meninada acompanhando e pedindo mais uma historinha, uma s\u00f3, bem pequena!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Epif\u00e2nio gostava de pedir dinheiro emprestado \u00e0 minha m\u00e3e e aos meus tios, quantias insignificantes; mas, quando fazia o pedido, assumia um ar s\u00e9rio e se comportava como se fosse uma grande soma, fazendo quest\u00e3o de garantir que pagaria na segunda-feira; nunca mais lembrava de pagar!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele acompanhava todos os enterros da cidade; o chap\u00e9u entre as m\u00e3os, cabisbaixo, contrito e muito s\u00e9rio; e descrevia com todos os detalhes o enterro dos ricos, &#8220;uma das coisas mais bonitas de se ver&#8221;, na sua opini\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele n\u00e3o estava muito velho, mas estava adoentado. N\u00e3o fazia mais trabalhos pesados; fazia compras para a minha av\u00f3 e acompanhava meu av\u00f4 nas viagens \u00e0 fazenda. Depois de algum tempo passou at\u00e9 a morar em casa deles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma das coisas que mais gostava de dizer \u00e9 que tinha dois nomes: <i>Epif\u00e2nio Nunes da Silva e Manuel Nunes dos Reis<\/i>. Dizia que o verdadeiro nome era Manuel Nunes dos Reis, pois havia nascido no dia da festa de Reis; no entanto, no dia do batizado, a sua madrinha resolvera cham\u00e1-lo Epif\u00e2nio por ser o dia da festa da Epif\u00e2nio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contava tamb\u00e9m que aos 20 anos comera meia lata de formicida, um inseticida conhecido, utilizado para matar formigas e fatal se ingerido pelo homem. Mas ele, apesar disso, escapara. E quando pergunt\u00e1vamos porque havia feito isso, respondia que fizera isso, pois n\u00e3o queria casar-se com Brite (seu verdadeiro nome \u00e9 Balbina). Segundo ele, algu\u00e9m j\u00e1 havia &#8220;bulido&#8221; com ela antes dele e que D. Pombinha, que era decidida e corajosa, fora busc\u00e1-lo em S\u00e3o Jos\u00e9 das Itapororocas, para cas\u00e1-lo num prazo de 24 horas. Como n\u00e3o queria casar, comeu veneno; como n\u00e3o morreu, casou-se. Contam que o veneno foi expelido pelos poros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Brite e Epif\u00e2nio viveram juntos e brigaram at\u00e9 pouco tempo. Dessa uni\u00e3o nasceram sete filhos: <i>Jove, Crispim, Ten\u00f4, Cristino, Jodita, Vadin e Maro<\/i>. Era como os chamava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, escrevendo, sinto uma grande saudade de voc\u00ea, tio Pif\u00e2nio, uma saudade daquelas que doem, que maltratam, daquelas que fazem a gente sofrer. Voc\u00ea foi embora, tio Pif\u00e2nio, de mansinho, sem pedir licen\u00e7a, sem fazer barulho. Voc\u00ea fez isso enquanto todos dormiam. Voc\u00ea n\u00e3o gostava de despedidas&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As nossas crian\u00e7as, tio Pif\u00e2nio, v\u00e3o crescer sem ouvir as suas hist\u00f3rias. Os nossos meninos e meninas precisavam ainda aprender a comer bagos de jaca e punhados de amendoim torrado misturados com rapadura. Voc\u00ea precisava ainda espalhar a felicidade entre eles, e enfeitar as suas meninices com o seu amor!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabe tio Pif\u00e2nio, no dia do seu enterro lembrei daquelas coisas que voc\u00ea sempre dizia: &#8220;Eu j\u00e1 tenho a roupa do meu enterro; foi Carlito quem me deu. sei que pra o mosul\u00e9 eu num v\u00f4, l\u00e1 \u00e9 lugar de rico; mas eu sei que voc\u00eas, cada um, vai lev\u00e1 uma flor pra minha cova e que v\u00e3o pedi pra Jesus, pra me arranj\u00e1 um lugazino bom perto dele; voc\u00eas sabia qui prece de crian\u00e7a Deus escuta?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea achava bonito os enterros dos ricos e fizeram um parecido para voc\u00ea, tio Pif\u00e2nio, \u00ab\u00a0com coroa e caix\u00e3o envernizado, da moda\u00a0\u00bb como voc\u00ea gostava de dizer. O mausol\u00e9o Pif\u00e2nio, que voc\u00ea ajudou a construir com o suor do seu rosto, hoje serve de ber\u00e7o para os seus ossos e voc\u00ea nem queria ir pr\u00e1 l\u00e1&#8230; Voc\u00ea pedia para enfeitarmos a sua sepultura com flores e n\u00f3s lhe escutamos; e pusemos l\u00e1, n\u00e3o s\u00f3 os bouquets vi\u00e7osos de saudades, flores lil\u00e1ses e tristes, testemunho do sentimento de quem fica, mas tamb\u00e9m os nossos cora\u00e7\u00f5es de crian\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sabe por que, tio Pif\u00e2nio? Porque prece de crian\u00e7a Deus escuta e atende e eu, cresci muito e esqueci muitas coisas importantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Adeus, meu velho, descanse em paz!<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\">Feira, 02\/05\/71<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Inf\u00e2ncia, ternura, modestia, um verdadeiro heroi. <a href=\"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=6243\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[30],"tags":[],"class_list":["post-6243","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas-leni-david"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6243","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6243"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6243\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6246,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6243\/revisions\/6246"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6243"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6243"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6243"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}