{"id":6316,"date":"2016-09-25T18:46:40","date_gmt":"2016-09-25T21:46:40","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=6316"},"modified":"2016-10-04T20:54:36","modified_gmt":"2016-10-04T23:54:36","slug":"a-nevasca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=6316","title":{"rendered":"A nevasca"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Leni David<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0Nas minhas andan\u00e7as por aqui encontrei a cr\u00f4nica que publico abaixo, esquecida numa gaveta, gravada num disquete. Embora esteja aproveitando o sol gostoso do ver\u00e3o franc\u00eas, de f\u00e9rias e curtindo tudo que tenho direito, vou public\u00e1-la no blogue com o objetivo de resgat\u00e1-la.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/SDC10632.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6322\" alt=\"SDC10632\" src=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/SDC10632.jpg\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>\u00a0<strong>A nevasca<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/em>\u00c0s dez da manh\u00e3 o telefone tocou. Era uma brasileira que havia chegado a Paris naquela manh\u00e3. Ela buscava informa\u00e7\u00f5es a respeito de uma p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e pedia sua ajuda. Tinha conseguido o seu n\u00famero de telefone por interm\u00e9dio de uma amiga que morava na Bahia e que tamb\u00e9m era sua amiga. Para quem vive no exterior, a visita dos amigos queridos reconforta o cora\u00e7\u00e3o. Mas quando se trata de receber amigos dos amigos, o prazer se transforma em dever.<\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/em>\u00c9 preciso lembrar que na Europa as pessoas n\u00e3o s\u00e3o muito dispon\u00edveis. Elas trabalham, cuidam dos filhos, da casa, das compras e da cozinha. Mesmo os idosos e as pessoas abastadas n\u00e3o costumam ter servi\u00e7ais. At\u00e9 o lixo, cada um transporta o seu at\u00e9 o subsolo do pr\u00e9dio, de onde \u00e9 recolhido pelo respons\u00e1vel por este servi\u00e7o. Quem tem filhos pequenos, contrata uma <i>baby-sitter<\/i> para tomar conta das crian\u00e7as quando vai ao teatro, ou a um jantar em casa de amigos; sen\u00e3o, contrata-se uma faxineira para trabalhar quatro horas por dia, pois o custo desse privil\u00e9gio tem um custo semanal de cerca de meio sal\u00e1rio m\u00ednimo em moeda brasileira. Apesar do frio glacial que fazia naquele m\u00eas de janeiro, ela estava de folga e concordou em encontrar a visitante num Caf\u00e9 da Pra\u00e7a da Sorbonne, pr\u00f3ximo ao hotel onde ela estava hospedada. Combinaram as roupas que vestiriam e concordaram em levar nas m\u00e3os uma revista brasileira para facilitar a identifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/em>Como os outros membros da fam\u00edlia almo\u00e7avam nos locais de trabalho e de estudo, almo\u00e7ou rapidamente e preparou-se para enfrentar o frio. Desceu a rua que dava acesso ao ponto do \u00f4nibus, de onde se tinha uma linda vista de Paris nos dias claros e ensolarados. Naquela tarde, por\u00e9m, a paisagem era l\u00fagubre, tendo como pano de fundo um c\u00e9u cinzento, quase branco; a cidade parecia envolvida numa cortina de fuma\u00e7a. As \u00e1rvores nuas mostravam galhos ressequidos e espetados que lembravam m\u00e3os voltadas para o c\u00e9u, como se pedissem socorro. E o vento gelado dava alfinetadas no rosto e maltratava os olhos.<\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/em>O \u00f4nibus que lhe levaria ao centro da cidade era de grande valia pois dispensava o uso do metr\u00f4, num momento em que as amea\u00e7as de atentados eram constantes. Reconfortada pelo aquecimento do ve\u00edculo, olhava a rua, as vitrines decoradas e as pessoas que passavam encolhidas, s\u00e9rias, vestidas com roupas escuras. Chegou ao Caf\u00e9 e instalou-se numa mesa pr\u00f3xima \u00e0 entrada. Pediu um cafezinho e deixou a revista brasileira sobre a mesa. Logo depois entraram duas jovens senhoras e ela adivinhou, vendo as roupas que vestiam, que uma delas era a pessoa com quem havia marcado encontro: cal\u00e7as jeans, t\u00eanis, muitas blusas sobrepostas que davam um aspecto recheado ao corpo e um casaco antigo, muito largo. Esse tipo de indument\u00e1ria, era o \u201cuniforme\u201d, preferido pela maioria dos brasileiros que visitavam Paris. Elas sentaram-se numa mesa pr\u00f3xima e uma delas retirou da sacola uma revista brasileira. N\u00e3o teve d\u00favidas; aproximou-se, identificou-se e cinco minutos depois j\u00e1 conversavam e tomavam vinho quente como se j\u00e1 se conhecessem h\u00e1 muitos anos.<\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/em>Pode ser exagerado repetir que o frio era glacial, mas, a cada vez que algu\u00e9m entrava ou sa\u00eda do caf\u00e9, uma rajada de vento frio invadia o recinto; preferiram, ent\u00e3o, continuar conversando ali. A conversa estava animada quando, olhando atrav\u00e9s do vidro, uma das brasileiras comentou, num tom alegre, se os floquinhos brancos que caiam rua eram neve. Olhou para a rua e constatou que come\u00e7ara a nevar; a visitante ficou maravilhada pois embora j\u00e1 tivesse visitado a Europa em outras ocasi\u00f5es, aquela era a primeira vez que via a neve cair.<\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/em>Pensou nos transtornos que a neve provocava na cidade, apesar de ser linda, mas n\u00e3o fez nenhum coment\u00e1rio. Lembrou que muitos se machucam porque as cal\u00e7adas ficam escorregadias; lembrou da mistura de areia e sal que pulverizavam nas ruas para permitir a circula\u00e7\u00e3o de ve\u00edculos e do lama\u00e7al abomin\u00e1vel que se formava em poucos minutos. Pensou em outros inconvenientes, mas preferiu dizer que a neve era muito bem-vinda quando se estava numa esta\u00e7\u00e3o de <i>sky<\/i>, ou instalado diante de uma lareira, com bons livros para ler, amigos para conversar e um chocolate fumegante para saborear.<\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/em>Quando a cal\u00e7ada se cobriu totalmente de branco, alguns jovens come\u00e7aram a formar bolas que atiravam nos companheiros. Riam muito, escorregavam, corriam numa algazarra descontra\u00edda. Ent\u00e3o a brasileira comentou, como se conseguisse ler seus pensamentos negativos, que apesar do frio medonho, as pessoas conseguiam se divertir. Concordou com ela e aceitou a incumb\u00eancia de fotograf\u00e1-la na paisagem nevada.<\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/em>Eram cinco e meia quando decidiu voltar para casa. Despediu-se das brasileiras prometendo que se encontrariam dentro de dois dias e deixou-as na entrada do Jardim de <i>Luxemburgo<\/i>, onde algumas crian\u00e7as modelavam bonecos engra\u00e7ados, daqueles que ilustram os cart\u00f5es de boas-festas. As visitantes estavam embevecidas com a paisagem branca da cidade e decididas a comprar mais filmes para novas fotografias e a jantar olhando a paisagem atrav\u00e9s da vidra\u00e7a de um restaurante pr\u00f3ximo ao hotel onde estavam hospedadas, ali mesmo, no <i>Quartier Latin<\/i>. Andou na dire\u00e7\u00e3o do ponto de \u00f4nibus e levantou o cachecol de l\u00e3 para proteger a boca e o nariz, dormentes, como se estivessem anestesiados. Apesar de manter as m\u00e3os enluvadas nos bolsos, a sensa\u00e7\u00e3o de frio era intensa e os p\u00e9s doloridos incomodavam devido aos sapatos leves que usava, inadequados para aquele tempo.<\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/em>Numa cidade onde os \u00f4nibus s\u00e3o pontuais, aquele demorava a chegar. Impaciente, decidiu voltar de metr\u00f4 pois come\u00e7ava a escurecer. Desceu em <i>Montparnasse<\/i> onde faria a conex\u00e3o para a linha do seu bairro. A esta\u00e7\u00e3o de <i>Montparnasse<\/i> estava cheia e as pessoas andavam apressadas pelos corredores. De repente ouviu-se os altos-falantes anunciarem a suspens\u00e3o dos servi\u00e7os do metr\u00f4 em algumas linhas externas, pois a nevasca havia provocado panes na rede el\u00e9trica.<\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/em>Resolveu telefonar para a empresa onde o marido trabalhava e pedir para que viesse busca-la, mas ele estava em reuni\u00e3o e o colega que atendera ao telefonema prometera dar o recado, caso o encontrasse ainda, visto que j\u00e1 passava das dezoito horas. Concluiu que era preciso agir rapidamente e sair da esta\u00e7\u00e3o para pegar um \u00f4nibus, ou mesmo um t\u00e1xi. Enquanto esperava no ponto tentou ligar para o marido, mais uma vez, mas o telefone p\u00fablico n\u00e3o funcionava. Decidiu andar at\u00e9 o ponto seguinte, onde talvez houvesse mais op\u00e7\u00f5es. Andava como se estivesse pisando em pregos, os p\u00e9s enrijecidos pelo frio. Tentou telefonar mais uma vez. In\u00fatil! O telefone do trabalho n\u00e3o respondia. Decidiu ligar para casa e deixar uma mensagem na secret\u00e1ria eletr\u00f4nica; possivelmente ele j\u00e1 estaria l\u00e1 e certamente viria ao seu encontro.<\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/em>O tempo passava, a neve ca\u00eda cada vez mais forte e ela constatou que s\u00f3 chegaria em casa se encontrasse um t\u00e1xi. No entanto, eles tamb\u00e9m haviam desaparecido. Come\u00e7ou a desesperar-se. Entrou num caf\u00e9 e pediu um chocolate, mas as m\u00e3os estavam t\u00e3o dormentes que dificultavam at\u00e9 o manuseio da x\u00edcara. Foi ao sanit\u00e1rio e abriu a torneira de \u00e1gua quente deixando o l\u00edquido escorrer sobre os dedos, na esperan\u00e7a de diminuir o desconforto. Reconfortada pela bebida quente, decidiu continuar a caminhada em busca de um transporte. Numa esquina viu um t\u00e1xi do qual descia um passageiro e precipitou-se na dire\u00e7\u00e3o do ve\u00edculo; o motorista impediu-a de entrar, explicando que acabara de dispensar um cliente pois n\u00e3o havia condi\u00e7\u00f5es de circular na cidade devido ao engarrafamento e aos acidentes. Ele tencionava ir para casa. Ela perguntou onde morava e ele respondeu que morava em <i>Choysi<\/i>. Sorriu esperan\u00e7osa pois o caminho para <i>Choysi<\/i> era o mesmo da sua resid\u00eancia; assim, convenceu o motorista de que n\u00e3o custava nada conduzi-la; ele concordou em leva-la, mas sem nenhuma garantia de que chegariam ao destino.<\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/em>J\u00e1 instalada e agradecendo a Deus por ter lhe concedido a gra\u00e7a de encontrar ajuda naquele momento de afli\u00e7\u00e3o, escutou no radio do carro que a cidade estava completamente paralisada. V\u00e1rias linhas de metr\u00f4 haviam sido interditadas e os \u00f4nibus impossibilitados de circular, mesmo com correntes nos pneus. Falava-se nos esfor\u00e7os da prefeitura diante daquela nevasca imprevista, mas quase nada podia ser feito pois os ca\u00e7as-neve n\u00e3o podiam circular devido ao congestionamento do tr\u00e2nsito. Acreditou que tinha muita sorte, j\u00e1 aquecida e instalada confortavelmente, \u00e0 caminho de casa.<\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/em>O carro rodava a dez quil\u00f4metros por hora. O barulhinho dos pneus na neve fresca era macio e agrad\u00e1vel de ouvir. Rodaram cerca de quinhentos metros, mas logo ficaram bloqueados. Passaram cerca de vinte minutos sem sair do lugar. De repente, o telefone do motorista tocou e depois de falar durante algum tempo, ele avisou: \u201cinfelizmente, a senhora vai ter que descer. Vou estacionar o carro na primeira vaga que encontrar e vou dormir num hotel; a dire\u00e7\u00e3o da empresa nos proibiu de circular.\u201d<\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/em>Engoliu a vontade de chorar e desceu do carro. Entrou num Caf\u00e9 em <i>Gobelins<\/i>, com a inten\u00e7\u00e3o de telefonar para casa, mais uma vez. J\u00e1 passava das dezenove horas e dessa vez, a sua filha adolescente respondeu ao apelo telef\u00f4nico. Seu pai ainda n\u00e3o havia chegado e ela explicava que tamb\u00e9m tinha sofrido para chegar em casa na volta da escola e aconselhou, com naturalidade, que s\u00f3 havia um meio de voltar para casa: fazer o percurso andando, pois n\u00e3o havia transporte e a camada de neve j\u00e1 atingia os 40 cent\u00edmetros. Entrou em desespero; era imposs\u00edvel andar cerca de cinco quil\u00f4metros a\u00e7oitada pelo vento, pela neve e tremendo de frio. Era imposs\u00edvel! Quis chorar, mas mesmo as l\u00e1grimas pareciam congeladas.<\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/em>Mais uma bebida quente num Caf\u00e9 do caminho, mais um quarteir\u00e3o de caminhada; outro Caf\u00e9, outra caminhada; mais um esfor\u00e7o, muita revolta e muitas inj\u00farias balbuciadas ao vento. Os Caf\u00e9s fechando as portas e os aparelhos telef\u00f4nicos cada vez mais mudos&#8230; finalmente, cerca de duas horas depois, chegava \u00e0 esta\u00e7\u00e3o de metr\u00f4 do seu bairro onde uma pequena multid\u00e3o se aglomerava. Pessoas idosas, m\u00e3es carregando crian\u00e7as; crian\u00e7as chorando; adolescentes sorridentes numa algazarra infernal. Novas tentativas para usar os telefones p\u00fablicos, mas diante deles as filas se alongavam pelos corredores da esta\u00e7\u00e3o. Na lanchonete n\u00e3o se encontrava mais nada de comer ou de beber. Decidiu que ficaria ali pois n\u00e3o tinha mais condi\u00e7\u00f5es de fazer qualquer esfor\u00e7o f\u00edsico e para chegar \u00e0 sua casa havia ainda cerca de um quil\u00f4metro e meio de caminhada. Sentia fome, sede, frio e revolta. Preferia imaginar que logo seu marido chegaria em casa e que certamente viria busc\u00e1-la. Resolveu entrar na fila do telefone, e ap\u00f3s meia hora de longa espera, a filha insistia para que fizesse mais um \u201cpequeno esfor\u00e7o\u201d pois a avenida que dava acesso ao metr\u00f4 estava completamente bloqueada e mesmo que seu pai j\u00e1 estivesse em casa, seria imposs\u00edvel chegar at\u00e9 l\u00e1. Decidiu ent\u00e3o que s\u00f3 sairia dali quando a nevasca acabasse.<\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/em>Colocou o fone no gancho e acomodou-se num canto para proteger-se do vento frio. Uma mulher loura, simp\u00e1tica e bem vestida aproximou-se; come\u00e7ou a conversar, coisa que n\u00e3o era muito natural por ali. Contou a sua maratona para aquela desconhecida am\u00e1vel e pensou que quando as pessoas estavam em dificuldade, se tornavam solid\u00e1rias. A loura disse que o seu marido estava estacionado perto dali e que eles poderiam lhe dar uma carona, desde que ela concordasse em utilizar caminhos secund\u00e1rios, que alongariam o percurso; mas, como moravam num bairro pr\u00f3ximo ao seu, n\u00e3o custava nada transport\u00e1-la. Agradeceu comovida e aceitou a oferta; andaram uns trezentos metros sobre a neve alta. Entraram numa camionete que estava estacionada ao longo do meio fio. A loura havia dito que morava depois de <i>Clamart<\/i>, desse modo passaria perto da sua resid\u00eancia, de onde andaria mais uns cem metros e estaria a salvo no aconchego do seu lar.<\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/em>A camionete potente come\u00e7ou a circular por ruas secund\u00e1rias, cheias de obst\u00e1culos. Tentou conversar com os benfeitores, mas eles n\u00e3o alimentaram a conversa. Mas come\u00e7aram a falar entre si, numa l\u00edngua estranha, que poderia ser russo, polon\u00eas, dinamarqu\u00eas&#8230; mas certamente uma l\u00edngua diferente que jamais escutara antes. No carro havia um equipamento que transmitia mensagens e, de vez em quando, uma delas interrompia a conversa dos dois. Tentou convencer-se de que estavam usando ruas secund\u00e1rias para evitar o congestionamento. De repente, avistou o mercado de Clamart onde costumava ir aos s\u00e1bados. Constatou que a sua rua havia ficado para tr\u00e1s h\u00e1 muito tempo. Disse ao casal que estava perto de casa e que queria descer ali. Foi ignorada.<\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/em>Tornou a repetir que precisava descer pois j\u00e1 estava longe da casa; a loura ent\u00e3o perguntou se ela tinha dinheiro para pagar a corrida; perguntou quanto custaria e disse que tinha apenas um pouco de dinheiro na bolsa. A loura olhou na sua dire\u00e7\u00e3o e respondeu que custaria caro, muito caro. Abriu o porta-luvas e mostrou-lhe um rev\u00f3lver. Ela emudeceu, sentiu um aperto no cora\u00e7\u00e3o e pediu ajuda ao seu anjo-da-guarda, em sil\u00eancio: \u201cSanto anjo do Senhor, meu zeloso guardador&#8230; Entraram por uma avenida larga, conhecida, que dava acesso \u00e0 estrada de <i>Orleans<\/i>. O homem, num sotaque carregado, anunciou que na sa\u00edda da cidade havia um caixa eletr\u00f4nico. Sentiu medo pois seu saldo banc\u00e1rio era insignificante e tremeu mais ainda, quando imaginou que poderia ser maltratada e at\u00e9 assassinada.<\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/em>O tr\u00e2nsito da avenida era denso e desordenado. Os carros rodavam lentamente. Via as pessoas que estavam em outros carros e olhava para elas com olhos de desespero; seu olhar devia traduzir uma imagem medonha, porque as pessoas olhavam para ela com um ar encabulado e come\u00e7avam a dizer coisas que ela n\u00e3o escutava, pois, os vidros estavam fechados. Come\u00e7ou a chorar compulsivamente, muito alto, como uma crian\u00e7a aterrorizada. O marido da loura falou qualquer coisa num tom brusco e ela replicou, nervosa, olhando para os lados e fazendo gestos com as m\u00e3os. Concluiu ent\u00e3o, que era melhor morrer ali, diante de todo mundo, do que num local deserto e escuro, onde poderia ser vitima de crueldades. Os carros se deslocavam lentamente e ela pedia a Deus que o engarrafamento continuasse, enquanto chorava um choro incontrol\u00e1vel que chamava a aten\u00e7\u00e3o dos ocupantes dos outros ve\u00edculos. De repente a loura gritou descontrolada: \u201cFora daqui! Des\u00e7a do meu carro! Saia! Saia logo, voc\u00ea \u00e9 louca! Saia!!! Fora!!!\u201d<\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/em>Abriu a porta da camionete e caiu de joelhos; tentou levantar-se, mas as pernas n\u00e3o obedeciam. Como um animal rastejou sobre a neve, at\u00e9 que num esfor\u00e7o desesperado conseguiu ficar de p\u00e9 e chegar, cambaleante, ao outro lado da rua onde havia um Caf\u00e9 na esquina. Ofereceram-lhe um <i>grog<\/i>, uma mistura quente feita \u00e0 base de <i>rhum<\/i> e perguntavam-lhe o que havia acontecido. Descabelada e suja, com a voz embargada pelas l\u00e1grimas, resumiu a sua aventura para um grupo de pessoas que se encontravam no local. Um motorista de t\u00e1xi ofereceu-se para transporta-la, mas sem garantia de que chegariam at\u00e9 a sua casa. Entrou no carro chorando e escutou o motorista repetir que j\u00e1 estava tudo bem, que n\u00e3o havia mais raz\u00e3o para chorar.<\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/em>Conseguiram chegar nas imedia\u00e7\u00f5es da sua resid\u00eancia por volta da meia-noite, mas teve que caminhar umas duas quadras com um p\u00e9 descal\u00e7o, pois na fuga desesperada havia perdido um dos sapatos. Entrou no pr\u00e9dio achando que tinha vivido um pesadelo. Sentia-se rid\u00edcula com aquele p\u00e9 descal\u00e7o, uma Cinderela pelo avesso! Entrou em casa e viu a sua filha que assistia televis\u00e3o deitada no sof\u00e1. O seu p\u00e9 esquerdo estava completamente morto, congelado. As unhas completamente roxas. Seu marido ainda n\u00e3o dera not\u00edcias. O que teria acontecido com ele?<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/SDC10630.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-6323 alignnone\" alt=\"SDC10630\" src=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/09\/SDC10630.jpg\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/em>Meia hora depois ele chegava contando as suas perip\u00e9cias; havia deixado o trabalho \u00e0s dezoito e trinta, mas ficara bloqueado, al\u00e9m do carro ter deslizado na neve e machucado o p\u00e1ra-choques. Tentou relatar a sua aventura, mas os dois estavam cansados e n\u00e3o ficaram impressionados com a narrativa. Todos haviam passado por grandes dificuldades e o sofrimento do outro era sempre insignificante se comparado ao seu. Tomou um banho e uma sopa quente e foi para a cama chorar baixinho. Sentia-se a mais injusti\u00e7ada das criaturas, a mais incompreendida das mulheres, a maior vitima da natureza. Ao mesmo tempo sentia-se reconfortada por ter escapado ilesa e por ter encontrado ajuda. As pernas do\u00edam em conseq\u00fc\u00eancia do esfor\u00e7o f\u00edsico; os p\u00e9s, doloridos e inchados. A cabe\u00e7a tamb\u00e9m do\u00eda. E o cora\u00e7\u00e3o do\u00eda mais ainda ao constatar, que al\u00e9m de v\u00edtima das intemp\u00e9ries havia sido v\u00edtima da sua tolice, da sua ingenuidade. Ser\u00e1 que eles haviam acreditado na sua hist\u00f3ria? Seu marido dissera que era uma aventura mirabolante&#8230;<\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/em>Preferiu acreditar que tudo aquilo n\u00e3o passou de um pesadelo e que ao despertar sob o calor aconchegante do edredom do seu leito, vislumbrava l\u00e1 fora a cidade majestosa, decorada como um magn\u00edfico bolo confeitado, todo branco.<\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0<\/em>Ch\u00e2tillon, 29 de mar\u00e7o de 2005<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leni David \u00a0 \u00a0 \u00a0Nas minhas andan\u00e7as por aqui encontrei a cr\u00f4nica que publico abaixo, esquecida numa gaveta, gravada num disquete. Embora esteja aproveitando o sol gostoso do ver\u00e3o franc\u00eas, de f\u00e9rias e curtindo tudo que tenho direito, vou public\u00e1-la &hellip; <a href=\"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=6316\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[30,162],"tags":[],"class_list":["post-6316","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas-leni-david","category-saidos-da-gaveta"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6316","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6316"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6316\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6355,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6316\/revisions\/6355"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6316"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6316"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6316"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}