{"id":6347,"date":"2016-10-04T20:48:53","date_gmt":"2016-10-04T23:48:53","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=6347"},"modified":"2016-10-04T20:57:49","modified_gmt":"2016-10-04T23:57:49","slug":"baden-powell-e-a-bahia-caso-de-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=6347","title":{"rendered":"Baden Powell e a Bahia \u2013 Caso de amor?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>\u00a0Leni David<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em style=\"color: #000000; font-weight: bold;\">Fazendo amigos<\/em><\/p>\n<p>Vin\u00edcius de Moraes poetizou um dia que \u201ca vida \u00e9 a arte do encontro\u201d e foi gra\u00e7as a um encontro casual numa livraria do quartier latin que conheci Haroldo Bas\u00edlio, mineiro de nascimento e carioca por ado\u00e7\u00e3o. Fiquei sabendo, depois, que ele era m\u00fasico e que dirigia um grupo musical, o <i>Son Br\u00e9sil<\/i>.<\/p>\n<p>Haroldo reside em Paris desde 1976, \u00e9poca em que trabalhou como bailarino e percussionista no \u201cVia Brasil\u201d, um dos maiores cabar\u00e9s brasileiros que existiu na Europa. Fez v\u00e1rias <i>tourn\u00e9es<\/i> com o grupo \u201cBrasil Tropical\u201d, e na volta a Paris foi trabalhar como bailarino no <i>Moulin Rouge<\/i>, ao lado de Lisette Malidor. Haroldo realizou v\u00e1rios espet\u00e1culos, no <i>R\u00e9gine\u2019s<\/i> e no famoso restaurante <i>Maxim\u2019s<\/i>, em Londres e Paris ; trabalhou com artistas brasileiros de grande sucesso na \u00e9poca, como Maria d\u2019Aparecida e Nazar\u00e9 Pereira, tamb\u00e9m participando de grava\u00e7\u00f5es com Henri Salvador e Pierre Vassiliu. S\u00f3 no in\u00edcio dos anos 80 ele iniciou sua carreira solo, como cantor e trompetista, acompanhado do guitarrista Chiquinho Tim\u00f3teo, com o qual realizou v\u00e1rias <i>tourn\u00e9es<\/i> pela Europa.<\/p>\n<p>Bas\u00edlio tornou-se um amigo e grande colaborador ; ele conhecia in\u00fameros artistas que trabalhavam na noite parisiense e ofereceu-me a possibilidade de conhecer m\u00fasicos e cantores brasileiros residentes na capital francesa. Gra\u00e7as \u00e0 sua ajuda realizei uma s\u00e9rie de entrevistas com esses artistas, assisti suas apresenta\u00e7\u00f5es em diversas casas de espet\u00e1culos e pude perceber, tamb\u00e9m, o importante \u201ctrabalho de bastidor\u201d, desenvolvido por esses profissionais para a divulga\u00e7\u00e3o da m\u00fasica brasileira no exterior.<\/p>\n<p>Foi atrav\u00e9s de Haroldo conheci Salom\u00e9, \u201ca voz mais bonita de Paris\u201d, segundo ele. Salom\u00e9 da Bahia, como \u00e9 conhecida na noite parisiense, dona de uma voz extraordin\u00e1ria, capaz de encantar plat\u00e9ias no famoso cabar\u00e9 <i>Chez F\u00e9lix<\/i> da<i> rue Mouffetard <\/i>e no<i> \u201c<\/i>Brasil Tropical\u201d. Salom\u00e9, como indica o seu nome art\u00edstico, \u00e9 baiana de Salvador, e come\u00e7ou a cantar em programas de audit\u00f3rios na R\u00e1dio Sociedade da Bahia, nos anos 60, usando o seu verdadeiro nome : Merinha Silva. Tamb\u00e9m conheci Sebasti\u00e3o Perazzo, o Ti\u00e3o da Bahia, que mora em Paris, h\u00e1 cerca de 20 anos. Ti\u00e3o tem quatro discos gravados, sendo que o \u00faltimo, \u201cRa\u00edzes de Angola e do Brasil\u201d em parceria com outros artistas, inclusive, Ces\u00e1ria \u00c9vora. Ti\u00e3o tamb\u00e9m musicou a pe\u00e7a \u201cO auto da compadecida, apresentada no Teatro Odeon, em Paris, em 1974 e fez v\u00e1rias <i>tourn\u00e9es<\/i> pela Europa e Estados Unidos divulgando a m\u00fasica brasileira.<\/p>\n<p><em><strong>\u201cSangue Novo\u201d<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Uma noite, fui convidada por Ti\u00e3o para assistir a um show no <i>Blue Note<\/i>, um barzinho aconchegante, dirigido por Janette, onde n\u00e3o falta caipirinha, p\u00fablico e apresenta\u00e7\u00f5es de bons m\u00fasicos. A noitada corria animada com Ti\u00e3o cantando um repert\u00f3rio de excelente qualidade e chegou ao seu momento culminante quando ele tocou o berimbau (uma das mais bonitas execu\u00e7\u00f5es desse instrumento que tive a oportunidade de ver), arrebatando aplausos entusiasmados do p\u00fablico presente. Ap\u00f3s o intervalo explicou que ia \u201cbotar sangue novo\u201d no palco e convidou, al\u00e9m do seu filho, os irm\u00e3os Philippe e Marcel Baden Powell, que estavam presentes, para dar uma \u201ccanja\u201d. Os jovens subiram ao palco, Philippe no \u00f3rg\u00e3o eletr\u00f4nico e Marcel ao viol\u00e3o, e quem assistia ao espet\u00e1culo, al\u00e9m da surpresa, sentiu-se privilegiado por testemunhar um momento inesquec\u00edvel de boa m\u00fasica. Enquanto eles se apresentavam, fiz algumas fotos e ap\u00f3s a apresenta\u00e7\u00e3o fui falar com os dois, que estavam acompanhados de jovens amigos. Philippe, com 18 anos na \u00e9poca, e Marcel, 14 anos n\u00e3o escondiam a timidez e um deles disparou: <i>\u201cn\u00e3o somos artistas ainda\u2026 o artista \u00e9 Baden Powell!<\/i>\u201d Por\u00e9m, concordaram em dar-me o endere\u00e7o residencial para que eu enviasse as fotografias que havia feito.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/PhilippeeMarcel.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6351\" alt=\"Philippe e Marcelo\" src=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/10\/PhilippeeMarcel.jpg\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong><em>Encontro com Baden Powell<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Fiz toda essa prele\u00e7\u00e3o pois foi gra\u00e7as \u00e0 cumplicidade desses amigos que consegui o contato com Baden Powell, que residia em Paris naquele momento. Est\u00e1vamos em 1996. Telefonei falando das fotos e propondo uma entrevista a Baden; S\u00edlvia, mulher e anjo da guarda do nosso artista, disse-me que n\u00e3o seria poss\u00edvel naquele momento pois Baden viajaria para a It\u00e1lia no dia seguinte, para uma s\u00e9rie de apresenta\u00e7\u00f5es. N\u00e3o me fiz de rogada, e esperei pacientemente que uma nova oportunidade se apresentasse. Alguns dias depois, fiz novo contato pois havia assistido uma apresenta\u00e7\u00e3o de Baden no <i>Hot Brass<\/i> e tinha certeza de que ele j\u00e1 se encontrava na cidade. Liguei para a resid\u00eancia dos artistas e, para minha surpresa, foi o pr\u00f3prio Baden quem respondeu ao telefone. Falei sobre o meu encontro com Phillippe e Marcel no <i>Blue Note<\/i>, das fotografias que havia feito e do meu desejo de entreg\u00e1-las e, se poss\u00edvel, de entrevist\u00e1-lo. Muito simp\u00e1tico ele aceitou a minha proposi\u00e7\u00e3o e marcamos para o dia 30 de abril, no in\u00edcio da tarde.<\/p>\n<p>N\u00e3o posso negar que encontrar Baden Powell \u201cem carne e osso\u201d, era muito importante para mim, enquanto pesquisadora, mas tamb\u00e9m como admiradora. \u00c9 preciso n\u00e3o esquecer que a minha gera\u00e7\u00e3o foi embalada pelos acordes de \u201cApelo\u201d e \u201cSamba em prel\u00fadio\u201d. Cheguei \u00e0s duas horas, em ponto. S\u00edlvia e os meninos esperavam-me ; Baden estava descansando. Refleti que, para come\u00e7ar, talvez fosse melhor conversar com S\u00edlvia e os meninos e estava certa, pois n\u00e3o tive dificuldades em entrosar-me. Falamos sobre v\u00e1rios assuntos, perguntei em que col\u00e9gios estudavam, falei das fotos, que, infelizmente, na pressa de sair para o encontro t\u00e3o esperado, havia esquecido em casa, e fiquei sabendo que, por minha culpa, eles haviam sido repreendidos pois Baden n\u00e3o sabia (ficou sabendo atrav\u00e9s do meu telefonema) que eles haviam tocado no Blue Note e n\u00e3o gostou da novidade! Fiquei mortificada, pedi desculpas, expliquei que n\u00e3o sabia desse detalhe\u2026<\/p>\n<p>Philippe, o mais velho, aluno do curso cient\u00edfico de um liceu parisiense e pretendendo cursar uma escola de engenharia, estuda m\u00fasica desde os sete anos de idade, mas h\u00e1 quatro anos, elegeu o piano como seu instrumento preferido, sob a orienta\u00e7\u00e3o da professora S\u00f4nia Maria Vieira, no Rio de Janeiro. Na sua opini\u00e3o os brasileiros que vivem na Fran\u00e7a s\u00e3o muito unidos; \u201c<i>existe uma admira\u00e7\u00e3o e um reconhecimento do artista (seu pai), mas n\u00e3o existe tietagem\u2026 no Brasil, \u00e9 um pouco diferente : quando os colegas sabem quem \u00e9 meu pai, querem ir em casa, querem conhec\u00ea-lo, etc. Aqui todos os brasileiros s\u00e3o iguais e nos sentimos brasileiros como os outros; o fato de sermos filhos do artista Baden Powell n\u00e3o interfere em nossas vidas<\/i>\u201d.<\/p>\n<p>Perguntei se o fato de ter um pai famoso n\u00e3o os inibia quando tocavam em p\u00fablico, apesar de serem excelentes m\u00fasicos e eles responderam: \u201c<i>fazemos m\u00fasica porque gostamos disso, \u00e9 heredit\u00e1rio! Nossos bisav\u00f3s eram m\u00fasicos, nossos av\u00f3s, tamb\u00e9m, tanto do lado materno como do lado paterno<\/i>\u201d. J\u00e1 Marcel, que tamb\u00e9m estuda m\u00fasica desde pequeno e que escolheu o viol\u00e3o, como o pai, cursa o curso ginasial ; apesar de mais t\u00edmido que o irm\u00e3o, n\u00e3o hesita em afirmar: \u201c<i>Fazer m\u00fasica \u00e9 um dom. Quando a gente toca, apesar da responsabilidade, o que vale mesmo \u00e9 o prazer\u2026 \u00e9 como fazer uma festa, \u00e9 puro prazer!<\/i>\u201d<\/p>\n<p>Convers\u00e1vamos animadamente quando Baden entrou na sala, vestido de branco e sorridente. Eram tr\u00eas horas da tarde. Alguns dias antes eu o havia visto no <i>Hot Brass<\/i>, sala superlotada, pessoas sentadas pelo ch\u00e3o, de p\u00e9, completamente absorvidas pelos acordes m\u00e1gicos do seu viol\u00e3o. No palco, ele era um monstro: homem e viol\u00e3o formavam um todo. Ali, na intimidade da sua casa, ele parecia um menino grande, e o seu jeito descontra\u00eddo deixou-me \u00e0 vontade, como se estivesse em casa de um velho amigo.<\/p>\n<div style=\"width: 460px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" \" alt=\"\" src=\"http:\/\/www.classicandjazz.net\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Baden-Powell.jpg\" width=\"450\" height=\"240\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Baden Powell (foto www.classicandjazz.net)<\/p><\/div>\n<p>Expliquei que n\u00e3o era jornalista e que desenvolvia uma pesquisa sobre m\u00fasica popular brasileira e aproveitei para dizer que tinha gostado muito da \u201ccanja\u201d dos meninos no Blue Note, ao que ele retrucou: <i>\u201cpor enquanto, eles n\u00e3o est\u00e3o ainda bem preparados\u2026 n\u00e3o est\u00e3o no ponto, precisam amadurecer<\/i>!\u201d Acrescentando que \u201c<i>breve eles tocariam juntos, pai e filhos<\/i>\u201d. Perguntou-me se eu era paulista. Expliquei que era baiana, ao que ele retrucou: \u201c<i>voc\u00ea sabe que eu ganhei um parceiro baiano? \u00c9 o Ild\u00e1sio (Ild\u00e1sio Tavares), ele \u00e9 muito amigo do Philippe e se correspondem sempre. Ele \u00e9 um intelectual, um letrista formid\u00e1vel<\/i>!\u201d E continuou: \u201c<i>eu sempre amei a Bahia. Eu acho que todo m\u00fasico carioca sempre teve muita liga\u00e7\u00e3o com a Bahia. N\u00e3o se pode falar em m\u00fasica, sem falar de Bahia<\/i>\u201d. Aproveitei a deixa e investi : &#8211; Ruy Castro<a title=\"\" href=\"https:\/\/d.docs.live.net\/57cc1ac0cb6d200b\/zLeni\/Textes_Leni\/Artigos%20publicados\/BadenPowell.doc#_edn2\">[1]<\/a> diz que voc\u00ea comp\u00f4s Berimbau sem nunca ter ido l\u00e1, e a Enciclop\u00e9dia da M\u00fasica Brasileira,<a title=\"\" href=\"https:\/\/d.docs.live.net\/57cc1ac0cb6d200b\/zLeni\/Textes_Leni\/Artigos%20publicados\/BadenPowell.doc#_edn3\">[2]<\/a> afirma que voc\u00ea permaneceu seis meses na Bahia, desenvolvendo uma pesquisa consagrada aos cantos de origem afro; quem est\u00e1 com a raz\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; \u201c<i>Eu fui \u00e0 Bahia v\u00e1rias vezes; a primeira vez em que estive l\u00e1, eu tinha uns doze anos de idade e acompanhava um grupo de artistas\u2026 Cyl Farney, Eliana (aquela do cinema), Renato Murce\u2026 depois acompanhei Silvinha Teles, logo no in\u00edcio da Bossa Nova. Acho que foi em 1960; a Bossa Nova n\u00e3o tinha estourado ainda. Era a \u00e9poca de Dolores Durand, Ma\u00edsa\u2026 foi a\u00ed que conheci Carlos Coquejo, meu primeiro amigo baiano. Numa outra viagem, conheci Canjiquinha. Ficamos amigos, ele falou, falou, contou hist\u00f3rias e eu fiquei vidrado naquilo. Canjiquinha me contou a hist\u00f3ria toda, de Besouro, Cord\u00e3o de Ouro\u2026 Nessa \u00e9poca eu estava em plena atividade com Vin\u00edcius\u2026 A\u00ed eu disse: Vin\u00edcius, tem um neg\u00f3cio de berimbau que \u00e9 maravilhoso\u2026 eu fiz um tema e eu queria que a gente fizesse uma letra para ele\u2026 \u2018capoeira me mandou, dizer que j\u00e1 chegou\u2026\u2019 e pusemos o nome da m\u00fasica \u2018Berimbau\u2019, que \u00e9 aquele sucesso que todo mundo conhece. No in\u00edcio do tema eu me lembrava do mar da Bahia\u2026 aquela penumbra, aquela calma, aquele mar escuro, e eu tinha um acompanhamento que me levava mas para junto do cais\u2026 eu procurei imitar o som do berimbau com o meu viol\u00e3o\u2026Mas, \u2018Lapinha\u2019, foi Canjiquinha quem me ensinou o refr\u00e3o, que \u00e9 um tema do folclore baiano. Ele cantava o refr\u00e3o\u2026 \u2018quando eu morrer, me enterre na Lapinha\u2026\u2019 e a segunda parte foi inspirada na hist\u00f3ria de Cord\u00e3o de Ouro, Besouro. Eu contei para o Paulo (Paulo C\u00e9sar Pinheiro), a hist\u00f3ria que Canjiquinha me contou e Paulo escreveu a letra : \u2018vai, meu lamento, vai, contar toda tristeza de viver\u2026 ai, a verdade sempre d\u00f3i\u2026 eu sou um homem s\u00f3, sem poder brigar\u2026<\/i>\u201d<\/p>\n<p>Baden explicou ainda que naquela \u00e9poca, no Rio de Janeiro, falava-se em capoeira, mas ningu\u00e9m conhecia o berimbau. Os grandes capoeiristas dos anos 30 \u2013 40, freq\u00fcentadores da Lapa, \u201cpassavam rasteira\u201d e citou Madame Sat\u00e3, Miguelzinho Camisa Preta, o Pedregulho, o pr\u00f3prio mestre Bimba, \u201c<i>que deve ter ensinado aos outros\u2026 eles jogavam capoeira, mas sem berimbau. Havia at\u00e9 um ditado popular que dizia: \u2018voc\u00ea pensa que berimbau \u00e9 gaita?\u2019 Mas ningu\u00e9m conhecia o instrumento\u2026 nem eu<\/i>!\u201d<\/p>\n<p>Contou-me tamb\u00e9m que quando crian\u00e7a, conviveu com a \u201cturma da velha guarda\u201d : Pixinguinha, Donga, Jo\u00e3o da Baiana e mesmo o seu professor de viol\u00e3o, o Meira, que fora membro dos \u201cOito Batutas\u201d pois eram amigos do seu pai, Seu Lilo, que por sua vez tocava violino. Fazia quest\u00e3o de salientar que todos esses grandes m\u00fasicos do passado, tinham suas ra\u00edzes na Bahia e brincou: <i>\u201ceu n\u00e3o sei bem, nasci no Rio, mas acho que tudo \u00e9 Brasil e eu acho que tenho uma liga\u00e7\u00e3o muito forte com a Bahia&#8230; tudo come\u00e7ou ali\u2026 a Bahia \u00e9 uma prova!<\/i>\u201d<\/p>\n<p>Explicou-me que o seu av\u00f4 paterno, Vicente Tom\u00e1s de Aquino, era maestro e que havia formado uma banda de m\u00fasica no s\u00e9culo passado, no Esp\u00edrito Santo, onde nascera; essa banda de m\u00fasica era composta de negros analfabetos, mas que haviam estudado m\u00fasica; eles usavam uniforme, mas andavam descal\u00e7os. Baden explica que fora a sua av\u00f3 paterna quem lhe contara a hist\u00f3ria e mostrara fotos do seu av\u00f4 em \u201ctraje \u00e0 rigor\u201d. Comentei que talvez fosse uma \u201cbanda de barbeiros\u201d,<a title=\"\" href=\"https:\/\/d.docs.live.net\/57cc1ac0cb6d200b\/zLeni\/Textes_Leni\/Artigos%20publicados\/BadenPowell.doc#_edn4\">[3]<\/a> muito comum naquela \u00e9poca nas festas populares da cidade. Baden fica pensativo por um instante e acrescenta :<\/p>\n<p>&#8211; \u201c<i>\u00c9 a\u00ed que eu acho que por causa do meu av\u00f4 (eu n\u00e3o sei quem foi meu bisav\u00f4), devo ter uma liga\u00e7\u00e3o com a Bahia\u2026 geograficamente o Esp\u00edrito Santo est\u00e1 ligado \u00e0 Bahia. Sou muito sens\u00edvel \u00e0s coisas da Bahia\u2026 ela me arrepia! Eu, quando vou l\u00e1, fico parado\u2026 sento numa pra\u00e7a \u00e0 noite\u2026 e parece que estou dentro da hist\u00f3ria\u2026 come\u00e7o a viver toda a hist\u00f3ria. Isso para o compositor \u00e9 uma coisa linda! N\u00e3o \u00e9 o que eu vejo, \u00e9 o que eu sinto, sabe? Os afro-sambas que eu compus, por exemplo, \u00e9 o lado mais forte da minha obra de compositor, de instrumentista. Aquela coisa afro, o viol\u00e3o com a afina\u00e7\u00e3o bem grave, lembra a Bahia. A cidade tem qualquer coisa parada no ar! \u00c0 noite, voc\u00ea escuta um toque de atabaque, longe\u2026 tem sempre uma m\u00fasica no ar, uma coisa misteriosa\u2026 aquele mar que bate calmo, aquele cais\u2026 aquela rua\u2026 e esse tro\u00e7o todo sai na minha m\u00fasica. E quando se diz: \u2018voc\u00ea foi \u00e0 Bahia e fez isso ou aquilo\u2019\u2026\u201d Eu respondo: N\u00e3o! Eu j\u00e1 sou de l\u00e1!\u201d<\/i><\/p>\n<p>Sa\u00ed da casa de Baden, nas nuvens, feliz, leve como uma pluma, com a sensa\u00e7\u00e3o de ter conquistado um grande pr\u00eamio. Dois anos se passaram, n\u00e3o nos vimos mais, por\u00e9m guardei a grava\u00e7\u00e3o da entrevista como uma rel\u00edquia; quando ou\u00e7o as m\u00fasicas que ele comp\u00f4s vibro mais do que antes, pois conhe\u00e7o os segredos de algumas, como nasceram, como ganharam for\u00e7a espalhando os seus acordes m\u00e1gicos pelo mundo \u00e0 fora. Por\u00e9m, embora seja um pouco ego\u00edsta, n\u00e3o resisti ao desejo de contar aos baianos, que temos um irm\u00e3o, um baiano pelo cora\u00e7\u00e3o, que ama tanto a \u201cvelha m\u00e3e Bahia\u201d quanto os seus filhos natos.<\/p>\n<p>Paris, 21\/09\/1998<span style=\"font-weight: 300;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<div>\n<hr align=\"left\" size=\"1\" width=\"33%\" \/>\n<div>\n<p><a style=\"font-weight: 300;\" title=\"\" href=\"https:\/\/d.docs.live.net\/57cc1ac0cb6d200b\/zLeni\/Textes_Leni\/Artigos%20publicados\/BadenPowell.doc#_ednref2\">[1]<\/a><span style=\"font-weight: 300;\"> Ver \u00abCASTRO, Ruy. <\/span><b><i>Chega de Saudade<\/i><\/b><span style=\"font-weight: 300;\">, S\u00e3o Paulo, Companhia das Letras, 1990, p. 306<\/span><\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"https:\/\/d.docs.live.net\/57cc1ac0cb6d200b\/zLeni\/Textes_Leni\/Artigos%20publicados\/BadenPowell.doc#_ednref3\">[2]<\/a> ; <b><i>Enciclop\u00e9dia da m\u00fasica brasileira erudita<\/i><\/b>, folcl\u00f3rica e popular, Art Editora, S\u00e3o Paulo, 1977, p.622-624.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><a title=\"\" href=\"https:\/\/d.docs.live.net\/57cc1ac0cb6d200b\/zLeni\/Textes_Leni\/Artigos%20publicados\/BadenPowell.doc#_ednref4\">[3]<\/a> Ver\u00a0: BRASIL, Hebe Machado. <b><i>A m\u00fasica na cidade do Salvador<\/i><\/b><i> &#8211; 1549 &#8211; 1900<\/i>\u00a0&#8230;, Publica\u00e7\u00e3o de Prefeitura Municipal de Salvador Comemorativa ao IV centen\u00e1rio da cidade, 1969, p.89. CARVALHO FILHO, Jos\u00e9 Eduardo Freire de. <b><i>A devo\u00e7\u00e3o do Senhor do Bomfim e sua hist\u00f3ria<\/i><\/b>, Salvador, Tip. de S\u00e3o Francisco, 1923, p. 138. ALMEIDA, Manuel Ant\u00f4nio de. <b><i>Mem\u00f3rias de um sargento de mil\u00edcias<\/i><\/b>, 9a\u00a0ed., S\u00e3o Paulo, Atica, 1979.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0Leni David Fazendo amigos Vin\u00edcius de Moraes poetizou um dia que \u201ca vida \u00e9 a arte do encontro\u201d e foi gra\u00e7as a um encontro casual numa livraria do quartier latin que conheci Haroldo Bas\u00edlio, mineiro de nascimento e carioca por &hellip; <a href=\"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=6347\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[19,13,119],"tags":[],"class_list":["post-6347","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-artigos","category-homenagens","category-musica"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6347","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=6347"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6347\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":6356,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/6347\/revisions\/6356"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=6347"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=6347"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/lenidavid.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=6347"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}