{"id":6512,"date":"2017-02-27T22:55:30","date_gmt":"2017-02-28T01:55:30","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=6512"},"modified":"2017-02-27T22:55:30","modified_gmt":"2017-02-28T01:55:30","slug":"edmundo-caroso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=6512","title":{"rendered":"Edmundo Caroso"},"content":{"rendered":"<p>Achei que, com o Carnaval chegando (o Mardi Gras l\u00e0 na Fran\u00e7a), Leni tinha gostado homenagear seu grande amigo Edmundo Car\u00f4so, escritor e poeta, autor de v\u00e1rias m\u00fasicas do Carnaval da Bahia. Ent\u00e3o publico uma cr\u00f4nica que Leni escreveu para\u00a0lembrar que amizade de verdade \u00a0n\u00e3o enfraquece nem com a dist\u00e2ncia, nem com o tempo! Denis<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/9819-2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6514\" alt=\"Edmundo Car\u00f4so\" src=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/02\/9819-2.jpg\" width=\"215\" height=\"235\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1>SOBRE UMA CARTA QUE RECEBI COM NOVE ANOS DE ATRASO.<\/h1>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong><em>Leni David<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Tenho um amigo cujo nome \u00e9 Edmundo Car\u00f4so. Conheci esse rapaz em meados dos anos 70, quando era estudante do curso de Letras. Ele estudava Economia e era aluno dedicado, segundo comentavam. Faz\u00edamos parte de um grupo de amigos comuns que gostava de m\u00fasica, poesia, pol\u00edtica e viol\u00e3o. Mas Edmundo abandonou a faculdade para se dedicar \u00e0 m\u00fasica.<\/p>\n<p>Naquele tempo nos reun\u00edamos nos fins de semana para tocar, cantar, beber e comer coisas consideradas ex\u00f3ticas como: mani\u00e7oba, mocot\u00f3 (no bar de Beto), bai\u00e3o-de-dois (feito por mim) e churrasco, cujo fogo at\u00e9 era aceso com cadeiras da sala de jantar. Embora trabalh\u00e1ssemos, n\u00e3o t\u00ednhamos muito dinheiro e, na maioria das vezes, nos cotiz\u00e1vamos para pagar o de comer e o de beber.<\/p>\n<p>Essa conviv\u00eancia quase di\u00e1ria do nosso grupo durou cerca de cinco ou seis anos, at\u00e9 que Nadja foi estudar em Sarago\u00e7a, onde conheceu e casou com Inigo; Edmundo foi para a Espanha algum tempo depois e quando voltou se dedicou \u00e0 m\u00fasica e \u00e0 produ\u00e7\u00e3o cultural em Salvador. Ra Nascimento, parceiro de Edmundo em muitas composi\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m trocou a cidade interiorana pela capital e se tornou m\u00fasico profissional. Alguns se formaram em Direito, outros em Engenharia ou Medicina. Outros, ainda, se tornaram empres\u00e1rios ou pais de fam\u00edlia. Eu, do meu lado, recebi uma bolsa do governo franc\u00eas e fui fazer um estagio na Fran\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">*****<\/p>\n<p>A verdade \u00e9 que mesmo com a desconstru\u00e7\u00e3o do grupo, visto que cada um tomou seu rumo, os encontros (quando aconteciam) e a amizade permaneceram intactos.<\/p>\n<p>H\u00e1 cerca de tr\u00eas meses encontrei Edmundo novamente, na Internet. Fiquei feliz e escrevi pra ele (sem esperan\u00e7a de receber resposta), pois o blog estava desativado desde o final de 2007. Al\u00e9m disso, havia cerca de nove anos que n\u00e3o nos v\u00edamos; a \u00faltima vez que nos encontramos foi num jantar em sua casa, onde comemos um soberbo Bacalhau \u00e0 Cravol\u00e2ndia preparado pelo anfitri\u00e3o. Nessa \u00e9poca eu morava na Fran\u00e7a e de volta a Paris escrevi para Edmundo. Primeiro, para dar informa\u00e7\u00f5es sobre Lavoisier, pois ele havia me pedido isso; em seguida, para contar o sucesso que havia sido a degusta\u00e7\u00e3o do Bacalhau \u00e0 Cravol\u00e2ndia com a francesada. Realizei a receita com muito esmero e foi um sucesso!<\/p>\n<p>S\u00f3 que nunca recebi resposta dessa carta. H\u00e1 pouco tempo, por\u00e9m, tive uma grande surpresa: Edmundo publicou uma tradu\u00e7\u00e3o de \u201cO luar de Pontevedra\u201d, poema de sua autoria traduzido por mim e sobre o qual comentei no blog. Nesse final de semana, \u201cvasculhando\u201d os blogs parceiros da Abril encontrei um outro post, \u201cAinda a prop\u00f3sito de Lene\u201d, onde ele publica uma carta que me escreveu h\u00e1 nove anos atr\u00e1s! O susto foi ainda maior pois leio o blog de Edmundo diariamente e, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, n\u00e3o vi essa publica\u00e7\u00e3o. Como passei alguns dias \u201cdesconfigurada\u201d, pe\u00e7o desculpas ao meu amigo.<\/p>\n<p>Ele inicia o seu texto assim:<\/p>\n<p>\u201cEu tenho um poema antigo que diz: ningu\u00e9m me escreve\/ eu tamb\u00e9m\/ eu n\u00e3o escrevo pra ningu\u00e9m\u201d.<\/p>\n<p>\u201cMentira! Escrevo muito, centenas de cartas, s\u00f3 que nunca as mando.<\/p>\n<p>Dentre estas existe uma que escrevi pra Leni quando ela morava em Paris (e viveu muitos anos por l\u00e1) depois de uma passagem dela l\u00e1 por casa, numa de suas vindas ao Brasil e respondendo a missiva que me mandou logo ao chegar (ou ter\u00e1 sido um email?). Foi nessa ida l\u00e1 em casa que ela me mostrou a tradu\u00e7\u00e3o que publiquei aqui e me deu de presente alguns discos como tamb\u00e9m me fez portador de uns pra Ra Nascimento, meu parceiro e amigo de vida toda.<\/p>\n<p>Portanto, para acabar de vez com essa fama injusta que me persegue, a de n\u00e3o remeter as cartas que escrevo, e mesmo j\u00e1 depois de muitos anos de Leni ter voltado para o Brasil, publico aqui a carta que n\u00e3o lhe mandei, esperando que ela n\u00e3o seja mal educada e me responda de pronto\u201d.<\/p>\n<p>NUNCA REMETI, S\u00d3 PRA MANTER A TRADI\u00c7\u00c3O\u201d.<\/p>\n<p><em>Querida Leni:<\/em><\/p>\n<p><em style=\"font-weight: 300;\">Dessa vez ficou mais do que claro: voc\u00ea se internacionalizou de vez. \u201cDisco duro\u201d. Essa, realmente \u00e9 fant\u00e1stica, coisa de primeiro mundo de quem j\u00e1 est\u00e1 arejado pelo clima das Oropas. Aqui nesse mundinho s\u00f3 quem fica duro \u00e9 pau; e pobre pra n\u00e3o perder o costume. O disco \u00e9 r\u00edgido por essas plagas mas que fica charmoso duro, fica.<\/em><\/p>\n<p><em>Adorei saber que voc\u00ea j\u00e1 deu seu ar de alquimista na receita do Bacalhau a Cravol\u00e2ndia. Nas suas m\u00e3os de fadas o fato de n\u00e3o encontrar maxixe em Paris \u00e9 fichinha. Veja que voc\u00ea, nem se apertou nem nada e j\u00e1 tascou ab\u00f3bora no manjar. Quem tem talento \u00e9 assim mesmo, n\u00e3o se aperta com nada. E por falar em talento \u2013 nesse caso, culin\u00e1rio e que voc\u00ea tem de sobra \u2013 exijo, imponho e esperneio pela receita do Bai\u00e3o de Dois que persegue meus sonhos mais secretos desde quase duas d\u00e9cadas quando nenhum churrasco nos vencia. Lembra que n\u00e3o ficava cadeira sobre cadeira quando faltava carv\u00e3o na churrasqueira? Pois \u00e9, em nome daquela \u00e9poca e desses vinte anos de amizade, me mande a receita e ponto final.<\/em><i><\/i><\/p>\n<p><em>Voc\u00ea vai me dizer que sou um besta e que n\u00e3o cumpro o prometido j\u00e1 que ainda n\u00e3o ouvi Cez\u00e1ria \u00c9vora e Buena Vista, que deveria estar em alguma estante l\u00e1 da Princesa Isabel fazendo R\u00e1 Nascimento se intoxicar com alguma coisa, finalmente, diferente de sua pr\u00f3pria obra. Continua l\u00e1 em casa \u2013 tudo como naquele dia em que jantamos, rimos e falamos poesia.<\/em><i><\/i><\/p>\n<p><em>No que diz respeito a primeira afirma\u00e7\u00e3o voc\u00ea teria raz\u00e3o \u2013 ainda que em parte pois, mais que besta \u2013 sou um renomado imbecil mas n\u00e3o \u00e9 por isso que n\u00e3o ouvi Cez\u00e1ria. Tenho andado acorrentado no por\u00e3o da poesia \u2013 j\u00e1 entreguei o segundo livros para a Editora (O Verdume &amp; O Redemunho, que ser\u00e1 lan\u00e7ado em Janeiro, tudo por conta dela) e n\u00e3o tenho cabe\u00e7a pra outra coisa. Vc sabe como \u00e9, a m\u00fasica me toma e se eu misturar as coisas babau.<\/em><i><\/i><\/p>\n<p><em>Mas quanto a segunda, a hist\u00f3ria j\u00e1 \u00e9 outra: a pregui\u00e7a de R\u00e1, apesar de que eu tivesse lhe avisado logo no outro dia que tinha encomenda l\u00e1 em casa, n\u00e3o deixou pegar o disco e j\u00e1 ando pensando em usar a prerrogativa do uso capi\u00e3o e a\u00ed ele vai ver uma coisa, o quanto vai ser dif\u00edcil voltar a ter a propriedade da rel\u00edquia.<\/em><i><\/i><\/p>\n<p><em>Agrade\u00e7o as informa\u00e7\u00f5es sobre Lavoisier, v\u00e3o me quebrar um galh\u00e3o. Na sabia que o dito foi o descobridor do oxig\u00eanio. Devemos a ele respirar com conhecimento. Falando s\u00e9rio &#8220;Rien ne se perd, rien ne se cr\u00e9e, tout se transforme&#8221; ser\u00e1 a ep\u00edgrafe de um livro que j\u00e1 tenho pronto h\u00e1 algum tempo que se chama Cadernos Lavoisier Exatamente nesse esp\u00edrito de se reaproveitar todo o poss\u00edvel \u00e9 que revi meus poemas mofados na gaveta, que n\u00e3o cabiam em nenhum dos livros que tenho terminado e os reuni nessa salada pela qual tenho muito carinho. A \u00f3pera da Cidade faz parte dele. Ali\u00e1s, cad\u00ea o original que ficou de me mandar? V\u00ea se voc\u00ea escaneia e me remete por email. N\u00e3o tenho o dito cujo. Retrabalhei o poema numa vers\u00e3o posterior a primeira.<\/em><i><\/i><\/p>\n<p><em>Por falar em poema, a primeira vista, depois de ter pedido a alguns amigos que sabem rudimentos de franc\u00eas para ler a tradu\u00e7\u00e3o pra mim, adorei. Mas gostaria, com a sua permiss\u00e3o de interagir um pouco com voc\u00ea no resultado final. O franc\u00eas \u00e9 um idioma lindo e voc\u00ea me deu muita honra e alegria ao traduzir meu poema de forma t\u00e3o bela.<\/em><i><\/i><\/p>\n<p><em>Vou pedir a Lu para ler pra mim pois naquela constru\u00e7\u00e3o po\u00e9tica, o ritmo, mas do que tudo e a todo custo, ter\u00e1 de ser preservado. E me parece que, pelo menos no primeiro verso quando vc opta por utilizar \u201cLe clair de lune\u201d compro<em>me<\/em>te um pouco o ritmo da frase o que j\u00e1 n\u00e3o acontece em \u201cAh, clair de lune de surprises !\u201d Talvez a\u00ed esteja o segredo: a altern\u00e2ncia entre \u201cle lune\u201d e \u201cclair de lune\u201d, quando necess\u00e1rio, que dar\u00e1 mais charme a tradu\u00e7\u00e3o preservando seu ritmo. Falo tudo como um leigo que foi assessorado por alguns gagos lendo em Franc\u00eas. Sinceramente terei que conversar com Lu, dissecando tudo para chegar a uma conclus\u00e3o mais s\u00f3lida. Quanto ao conte\u00fado, pelo menos sobre o ponto de vista dos animais que me assessoraram na tradu\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, me parece que voc\u00ea conseguiu deixar intacto. De todas as maneiras, fiquei muito feliz, voc\u00ea, n\u00e3o importa o que aconte\u00e7a com minha arte de agora por diante, ser\u00e1 sempre a primeira pessoa que me traduziu pro Franc\u00eas.<\/em><\/p>\n<p><em>Para terminar, quero fazer dois pedidos. Leninho, querida amiga, prometa que nunca mais deixaremos nossa amizade fenecer no mar t\u00e3o rico de nossas virtudes e defeitos. Nos amamos muito e isso \u00e9 o que importa e \u2013 se n\u00e3o somos perfeitos \u2013 temos que sublimar tamb\u00e9m as imperfei\u00e7\u00f5es do outro. O que importa de verdade \u00e9 que somos amigos e irm\u00e3os, e isso basta. Falo essas bobagens mas por mim do que por voc\u00ea, que tem um cora\u00e7\u00e3o de ouro e sempre foi mais gente do que eu.<\/em><i><\/i><\/p>\n<p><em>Outra coisa: gostaria muito de manter regular correspond\u00eancia (troca de e-mails) falando de tudo que nos venha ao cora\u00e7\u00e3o: da cultura, dos filhos, da vida, dos amores e de n\u00f3s mesmos. Sem esquecer a m\u00fasica que sempre foi nosso elo.<\/em><\/p>\n<p>NUNCA REMETI, S\u00d3 PRA MANTER A TRADI\u00c7\u00c3O.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Achei que, com o Carnaval chegando (o Mardi Gras l\u00e0 na Fran\u00e7a), Leni tinha gostado homenagear seu grande amigo Edmundo Car\u00f4so, escritor e poeta, autor de v\u00e1rias m\u00fasicas do Carnaval da Bahia. 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