{"id":6592,"date":"2018-06-26T17:18:46","date_gmt":"2018-06-26T20:18:46","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=6592"},"modified":"2018-07-19T19:04:20","modified_gmt":"2018-07-19T22:04:20","slug":"entre-o-jacuipe-paris-e-o-paraguacu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=6592","title":{"rendered":"Entre o Jacu\u00edpe, Paris e o Paragua\u00e7u"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>\u00a0Por Patricia<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 Achei que saudade era o que eu tinha sentido quando morei longe de casa. Mas n\u00e3o. H\u00e1 dois anos, aprendi um novo significado, bem mais do\u00eddo. O dia 26 de junho \u00e9 um daqueles em que ela aperta mais forte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 Foi neste dia que ela nasceu. A filha mais velha de Leonel e Hilda. Nunca gostou muito do seu nome de batismo: Lenilda. Preferia Lene, at\u00e9 que se mudou para o outro lado do Atl\u00e2ntico e adotou Leni. Ficou completa quando incorporou o David, de Denis. Seu companheiro de vida. Ele que foi talvez um dos poucos a compreend\u00ea-la t\u00e3o bem. Daquelas compreens\u00f5es do outro que se faz dentro do sil\u00eancio e olhares de entendimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 Nascida no sert\u00e3o, cresceu entre o Jacu\u00edpe de Feira e a Bela Paz, onde o Paragua\u00e7u, na temporada de chuva, sai rasgando a terra e levando tudo com sua for\u00e7a. Levou essa for\u00e7a consigo para desbravar os caminhos da vida. Nem sempre foi f\u00e1cil. Em Feira, fez sua hist\u00f3ria e a transformou. Foi exemplo para muita gente ao desbravar novos horizontes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Agarrou todas as oportunidades e fez dos devaneios de Paris, das conversas das tardes calorentas com a prima Tony, um projeto de vida. E no frio dos invernos parisienses, que a deixavam melanc\u00f3lica, fez seu cantinho aconchegante de Bahia cheio de calor, onde os amigos que por l\u00e1 passavam sabiam encontrar seu porto seguro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Era dotada de m\u00faltiplos talentos. Desenhava flores como ningu\u00e9m. Transformava folhas brancas de seda em lindas pinturas abstratas, com cores que eram bem suas. Tinha na veia a arte de acalentar o paladar com sabores que s\u00f3 ela sabia extrair dos temperos mais simples e os ouvidos com sua voz de tons graves, \u00fanica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Nunca foi ex\u00edmia tocadora de viol\u00e3o, mas conseguia dedilhar nas cordas o som que precisava para embalar sua voz e revelar suas vers\u00f5es pessoais para letras de can\u00e7\u00f5es consagradas. Sua <i>playlist<\/i> era previs\u00edvel e mesmo assim, sempre original. Depois de Caju\u00edna, de Caetano, emendava com Borboleta, de Alceu, da qual cantava apenas a parte mais provocante: &#8220;Eu procuro a borboleta, feiticeira e descarada, pelo batom da camisa, pela marca da dentada&#8221;. Cantava e se divertia com a rea\u00e7\u00e3o da sua plateia. E seguia com irrever\u00eancia tocando Chiquita Bacana e revivendo a picardia dos sambas de roda do Rec\u00f4ncavo. No fundo, gostava de surpreender e estas eram suas maiores transgress\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0Era pura liberdade. Fazia o que tinha vontade. E depois de uma certa idade deixou de fazer o que queriam dela para s\u00f3 fazer o que ela queria. Era direito seu, dizia, n\u00e3o ter que fazer sala para gente chata, ir a recep\u00e7\u00f5es por mera obriga\u00e7\u00e3o. Sua casa era seu mundo. Ali, se sentia bem com suas pitangueiras, suas acerolas e a goiabeira que o passarinho semeou no jardim lateral estreito. E tinha seu ip\u00ea rosa que, quando florescia, ganhava fotos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 Talhada nos sert\u00f5es entre o Paragua\u00e7u e o Jacu\u00edpe, foi a sertaneja mais parisiense. N\u00e3o dispensava um beij\u00fa, uma carne do sol. Mas em seu paladar havia lugar tamb\u00e9m para uma dose de <i>pastis<\/i>, uma por\u00e7\u00e3o de <i>coq au vin<\/i> e um caf\u00e9 com <i>macarron<\/i>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 Paris. Perdi a viagem para Paris, em que planejava ir com ela a um caf\u00e9 que ficava perto da Sorbonne onde t\u00ednhamos ido no passado. Queria apenas reviver o momento de estarmos na cal\u00e7ada, apreciando o andarilhar de gente de todo jeito, de todo o mundo. Achei que faria isso em 2016, mas j\u00e1 era tarde. Seu corpo franzino, j\u00e1 adoentado, n\u00e3o permitia mais desfrutar destes pequenos prazeres. Mas pelo menos nos reencontramos na Paris que ela tanto amava e com a qual eu acertava minhas pequenas contas dos invernos da adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 Voltou \u00e0 sua Feira de Santana para uma \u00faltima Semana Santa. Despediu-se de todos ali, na sua casa onde o vento embala o sono, cercada dos irm\u00e3os, sobrinhos e amigos. Estava como queria: rodeada de quem gostava para conversas longas e repletas de detalhes sobre suas descobertas recentes que explicavam porque ela era daquele jeito. E todos ouviam com paci\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Tableau_de_Leni-2-reduzido.png\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-6595\" src=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2018\/06\/Tableau_de_Leni-2-reduzido.png\" alt=\"Tableau_de_Leni-2-reduzido\" \/><\/a><span style=\"font-weight: 300;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 No final da vida, descobriu bem mais do que possamos entender do que acontece entre o c\u00e9u e a terra. Despediu-se com um sorriso tranquilo de quem precisava descansar porque havia j\u00e1 feito muito. T\u00e3o terra e t\u00e3o mundo. Nossa Chiquita Bacana foi-se deixando seus significados.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0E tudo agora \u00e9 apenas saudade. Faltou dizer a ela muita coisa, porque as palavras, nem sempre chegam na hora certa. Mas pensando bem, isso \u00e9 bobagem. Leni David, minha m\u00e3e, sabia de tudo e lia da gente muito al\u00e9m da alma. E segue brilhando, mesmo na aus\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>\u00a0Patr\u00edcia Moreira<\/strong><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><em><strong>Jornalista<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0Por Patricia \u00a0 \u00a0 \u00a0 Achei que saudade era o que eu tinha sentido quando morei longe de casa. Mas n\u00e3o. H\u00e1 dois anos, aprendi um novo significado, bem mais do\u00eddo. 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