{"id":705,"date":"2010-06-21T00:34:40","date_gmt":"2010-06-21T03:34:40","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=705"},"modified":"2011-09-15T21:32:17","modified_gmt":"2011-09-16T00:32:17","slug":"uma-cronica-de-paulo-mendes-campos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=705","title":{"rendered":"Uma cr\u00f4nica de Paulo Mendes Campos"},"content":{"rendered":"<p style=\"padding-left: 180px;\"><strong>Lagartixa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u00a0Sinto nojo \u00a0e medo de lagartixas dom\u00e9sticas, acabei odiando o pobre bicho. Outro dia vi um menino brincar com uma, das menores, por sinal, e estremeci como se a crian\u00e7a estivesse a cutucar um violento jacar\u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Meu apartamento vinha sendo a resid\u00eancia de tr\u00eas enormes lagartixinhas. Noites mal dormidas. Pensei: preciso mat\u00e1-las para livrar-me do receio de que me caiam na cara durante o sono.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Ontem liquidei duas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">A primeira foi mais f\u00e1cil. Para come\u00e7ar, fitei-a longamente, como a convencer-me de minha superioridade f\u00edsica e moral. Armado de um cabo de vassoura, aproximei-me cauteloso, enquanto ele me olhava, a duvidar de minhas reais inten\u00e7\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel \u2013 conclu\u00ed \u2013 que este sujeito vai me dar, a mim que nada lhe fiz, uma cacetada. Como eu continuasse avan\u00e7ando recuou um pouco, mas, pejando-se da covardia, tornou a refletir que eu n\u00e3o teria motivos para maltrat\u00e1-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Seu nobre racioc\u00ednio custou-lhe o rabo, o rabo porque, no desconcerto da emo\u00e7\u00e3o, o golpe desviou-se alguns cent\u00edmetros do alvo. Enquanto o rabo \u2013 momento puro de misterioso pavor \u2013 estertorava-se no ch\u00e3o, a bichinha esgueirou-se pela parede, ocultando-se atr\u00e1s de um m\u00f3vel. Os saltos do rabo solit\u00e1rio me acabrunhavam. Senti meu valor desfalecer. Agora, no entanto, o problema era outro; tratava-se, piedosamente, de livrar a lagartixa daquele rabo inquieto, ou seja, destruir a lagartixa aleijada. De que vale uma lagartixa sem rabo? De que vale um rabo sem lagartixa. Afastei o m\u00f3vel, tive a impress\u00e3o triunfante de que ela fremia de horror.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Desferi o segundo golpe com tal confus\u00e3o de sentimentos que a infeliz ficou descadeirada. Tonta, sem no\u00e7\u00e3o do perigo, come\u00e7ou a arrastar-se penosamente pelo rodap\u00e9, desgraciosa e lenta. Com a terceira bordoada, estrebuchou de barriga para cima. \u00c9 cad\u00e1ver, respirei.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Coisa nenhuma. Ao remover o corpo, fui surpreendido por um pulo que a colocou de novo, toda estragada, na posi\u00e7\u00e3o normal. Veio-me um frio ruim \u00e0 espinha. Tive vontade de sair, dar uma volta pela praia, tomar um conhaque. A essa altura, entretanto, j\u00e1 n\u00e3o podia permitir a mim mesmo fraquezas dessa esp\u00e9cie. O tiro de miseric\u00f3rdia (ai de mim) teria liquidado um gamb\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">O assassinato da segunda, (a verifica\u00e7\u00e3o chocou-me bastante) foi incomparavelmente mais f\u00e1cil. Menos emocionado, j\u00e1 meio habituado ao crime, desferi apenas dois golpes furiosos e fatais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Joguei os corpos no lixo, e estava a escrever isto, quando algu\u00e9m, lendo por cima do meu ombro, corrigiu a minha ignor\u00e2ncia em dois pontos: primeiro que lagartixa d\u00e1 sorte; segundo, que, decepado o rabo de uma lagartixa, cresce-lhe outro. Assim sendo, quanto ao rabo retifico logo: uma lagartixa sem rabo, a longo prazo, vale uma lagartixa inteira. No tocante \u00e0 sorte, quero dizer que o exterm\u00ednio das duas inocentes parece que me ajudou muito a libertar-me do medo. A terceira lagartixa, ausente na hora da matan\u00e7a, pode ficar agradecida ao sacrif\u00edcio de suas irm\u00e3s. E se ela me der sorte, eu lhe pouparei a vida.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><strong>Paulo Mendes Campos<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><strong>Paulo Mendes Campos <\/strong>(*1922 &#8211; + 1991)- Nasceu em Belo Horizonte, filho do m\u00e9dico e escritor M\u00e1rio Mendes Campos e de D. Maria Jos\u00e9 de Lima Campos. Ainda jovem ingressou na vida liter\u00e1ria, como integrante da gera\u00e7\u00e3o mineira a que pertence Fernando Sabino e outros. Em 1945 foi ao Rio de Janeiro, para conhecer o poeta Pablo Neruda, e por l\u00e1 ficou. No Rio j\u00e1 se encontravam seus melhores amigos de Minas \u2014 Sabino, Otto, e H\u00e9lio Pellegrino. Passou a colaborar em <em>O Jornal<\/em>, <em>Correio da Manh\u00e3<\/em> (de qual foi redator durante dois anos e meio) e <em>Di\u00e1rio Carioca. <\/em>Neste \u00faltimo, assinava a &#8220;Semana Liter\u00e1ria&#8221; e, depois, a cr\u00f4nica di\u00e1ria &#8220;Primeiro Plano&#8221;.\u00a0Foi, durante muitos anos, um dos tr\u00eas cronistas efetivos da revista <em>Manchete. <\/em>Em 1951 lan\u00e7ou seu primeiro livro,   &#8220;A palavra escrita&#8221; (poemas).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Foi tradutor de poesia e prosa inglesa e francesa e traduziu, dentre outros, J\u00falio Verne, Oscar Wilde, John Ruskin, Shakespeare, al\u00e9m de Neruda, tendo enriquecido sua experi\u00eancia humana em viagens \u00e0 Europa e \u00e0 \u00c1sia. Publicou mais de duas dezenas de livros, entre eles: <em>A Palavra Escrita, poesia, Ed. Hipocampo &#8211; Rio de Janeiro, 1951; O Cego de Ipanema, cr\u00f4nicas, Ed. do Autor &#8211; Rio de Janeiro, 1960;Hora do Recreio, cr\u00f4nicas, Editora Sabi\u00e1- Rio de Janeiro, 1967;O Anjo B\u00eabado, cr\u00f4nicas, Ed. Sabi\u00e1 &#8211; Rio de Janeiro, 1969; O Amor Acaba &#8211; Cr\u00f4nicas L\u00edricas e Existenciais &#8211; Ed. Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, Rio de Janeiro, 1999; Cisne de Feltro &#8211; Cr\u00f4nicas Autobiogr\u00e1ficas &#8211; Ed. Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, Rio de Janeiro, 2000; Alhos e Bugalhos &#8211; Ed. Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, Rio de Janeiro, 2000; Brasil brasileiro \u2014 Cr\u00f4nicas do pa\u00eds, das cidades e do povo &#8211; Ed. Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, Rio de Janeiro, 2000;\u00a0 O gol \u00e9 necess\u00e1rio \u2014 Cr\u00f4nicas esportivas &#8211;\u00a0 Ed. Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, Rio de Janeiro, 2000.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lagartixa \u00a0Sinto nojo \u00a0e medo de lagartixas dom\u00e9sticas, acabei odiando o pobre bicho. Outro dia vi um menino brincar com uma, das menores, por sinal, e estremeci como se a crian\u00e7a estivesse a cutucar um violento jacar\u00e9. 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