{"id":823,"date":"2010-07-21T14:38:36","date_gmt":"2010-07-21T17:38:36","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=823"},"modified":"2011-09-15T18:50:35","modified_gmt":"2011-09-15T21:50:35","slug":"as-novenas-da-igreja-dos-remedios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=823","title":{"rendered":"As novenas da Igreja dos Rem\u00e9dios"},"content":{"rendered":"<p style=\"padding-left: 150px;\"><strong>\u00a0As cantoras do coro<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 330px;\">\u00a0<em>Leni David<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Eu devia ter uns doze anos quando comecei a participar do coro da igreja dos Rem\u00e9dios, junto com outras meninas, vizinhas da mesma rua. Ajud\u00e1vamos a cantar as trezenas de Santo Ant\u00f4nio, que aconteciam de primeiro a treze de junho, e as novenas de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio, no m\u00eas de outubro. Participar do coro da Igreja era um privil\u00e9gio, segundo as cantoras oficiais, que recebiam, inclusive, um pagamento simb\u00f3lico concedido pelo Padre Aderbal. As cantoras, elas nos permitiam subir at\u00e9 o coro para responder\u00a0a ladainha que era entoada durante as celebra\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o pod\u00edamos conversar, sorrir, ou tocar em qualquer objeto que estivesse exposto. N\u00e3o nos import\u00e1vamos com isso. O importante era responder o <em>ora pronobis<\/em> na hora certa e com a voz bem afinada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Dona Yolanda, esposa de um m\u00e9dico conceituado da cidade, cantava, mas a sua principal fun\u00e7\u00e3o era tocar o \u00f3rg\u00e3o. Como eu achava bonito aquele som! Dona Meranta e Dona Pombina as catequistas \u2013 elas ensinaram o catecismo \u00e0 maioria das meninas da cidade daquela \u00e9poca, mas nas novenas elas se transformavam em cantoras. Dona Tita morava na nossa rua, era vi\u00fava e tinha uma voz forte e l\u00edmpida, bonita. Havia outras cantoras, mas n\u00e3o me lembro dos nomes. A chefe, por\u00e9m, era Dona Catarina, tamb\u00e9m zeladora da igreja. Ela decidia tudo: os hinos que deveriam ser entoados,   se a ladainha seria em latim ou portugu\u00eas e a que momento dever\u00edamos entrar na cantoria. N\u00e3o reclam\u00e1vamos de nada e ainda fic\u00e1vamos contentes quando cada uma de n\u00f3s recebia duas balas de mel, uma no in\u00edcio \u201cpara ado\u00e7ar\u201d.a garganta, e a outra no final, como brinde.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Particip\u00e1vamos do coro h\u00e1 mais de dois anos. Assist\u00edamos \u00e0s celebra\u00e7\u00f5es do alto, sem ningu\u00e9m \u00e0 nossa frente e ainda nos divert\u00edamos. Am\u00e1vamos quando o Padre Aderbal, que era um pouco gordinho, careca e que tinha dois lindos olhos azuis, levanta os olhos e as m\u00e3os para os c\u00e9us. Isso acontecia quando os sinos repicavam e o tur\u00edbulo espalhava o aroma do incenso. Ajoelhado, olhos e m\u00e3os voltados para o alto, em atitude de adora\u00e7\u00e3o, t\u00ednhamos a impress\u00e3o de que ele iria voar. Nos control\u00e1vamos e sorr\u00edamos baixinho, de modo que ningu\u00e9m percebia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Certa vez combinamos de chegar \u00e0 igreja bem cedo. Chegamos bem antes das sete. Pedimos a chave do coro ao sacrist\u00e3o, que tamb\u00e9m era o sineiro. Para ensaiar \u2013 explicamos. E ele, sem nenhuma atitude hostil atendeu \u00e0 nossa solicita\u00e7\u00e3o. Subiu para tocar a primeira chamada da novena. Subimos a escada que levava ao coro. As pessoas j\u00e1 come\u00e7avam a chegar \u00e0 igreja. Ensai\u00e1vamos a ladainha quando Dona Yolanda chegou. Iara, que havia ficado como porteira, deixou que ela entrasse e ao v\u00ea-la chegar no alto da escada trancou a porta, por dentro. A primeira chamada da novena j\u00e1 havia sido feita, mas faltava a segunda e o sacrist\u00e3o n\u00e3o estava do lado de dentro. Iara n\u00e3o hesitou. Subiu os degraus que levavam \u00e0 torre, de dois em dois, e tocou o sino como nunca mais ouvi tocar em toda a minha vida, durante uns cinco minutos. Festivo, barulhento, emocionante! Isso foi bom porque, nesse \u00ednterim, as cantoras haviam chegado e batiam na porta do coro, em desesperadas, pois a novena come\u00e7aria \u00e0s 19h. Dona Yolanda, tamb\u00e9m,\u00a0entrou em desespero:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">&#8211; Quem trancou a porta? O que voc\u00eas fizeram? Abram a porta, j\u00e1!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Iara que j\u00e1 havia repicado o sino e encoberto o barulho feito pelas cantoras, apareceu com a cara mais inocente do mundo e explicou que havia perdido a chave enquanto tocava a segunda chamada da novena. Dona Yolanda nos olhou com ar severo e resmungou:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">&#8211; Quem vai cantar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">E n\u00f3s, em coro, respondemos:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u2013 N\u00f3s!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Ela sentou-se resignada diante do \u00f3rg\u00e3o e as notas musicais preencheram o templo. Geraldina, filha de Dona Tita e a mais velha do grupo \u2013 tinha uns quatorze anos \u2013 com o livreto da ladainha nas m\u00e3os instalou-se junto ao \u00f3rg\u00e3o. Dona Yolanda olhou incr\u00e9dula e deu os primeiros acordes. A voz de Geraldina ecoou l\u00edmpida e melodiosa e todos se voltaram para o coro, at\u00e9 o Padre. E o melhor \u00e9 que ela cantava em latim \u2013 e o nosso coro respondia o ora pronobis na maior afina\u00e7\u00e3o e felicidade. At\u00e9 Dona Yolanda se entusiasmou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Entoamos outros c\u00e2nticos e no encerramento da celebra\u00e7\u00e3o eu deveria cantar o hino de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio. At\u00e9 hoje tenho orgulho disso! Como tudo correra bem at\u00e9 ali, Dona Yolanda quis saber quem iria cantar no encerramento e eu me apresentei. Ela ainda ponderou:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">&#8211; Mas esse hino \u00e9 muito dif\u00edcil. Tem certeza que quer cantar esse mesmo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Eu respondi que sim e ela deu os primeiros acordes. Enchi os pulm\u00f5es e soltei a voz:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><em>Volvei oh Maria o vosso olhar<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><em>L\u00e1 do vosso santu\u00e1rio<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><em>Atendei nossos rogos nossas preces<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><em>Oh Virgem senhora do Ros\u00e1rio&#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Juro que foi lindo, t\u00e3o bonito que fiquei emocionada. Quando terminou estava com os olhos marejados de l\u00e1grimas. A maior surpresa, no entanto, foi a atitude de Padre Aderbal. Antes de tirar os paramentos, dirigiu-se aos fi\u00e9is e pediu uma salva de palmas \u201cpara as jovens cantoras do coro, que haviam embelezado com as suas vozes juvenis a festa de Nossa Senhora\u201d. Todos aplaudiram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Foi a\u00ed que nos lembramos da chave. Onde estava a chave da porta do coro? Preocupadas pens\u00e1vamos em subir at\u00e9 a torre para procur\u00e1-la quando Iara, com a cara mais inocente do mundo confessou:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">&#8211; A chave est\u00e1 aqui. E puxou o el\u00e1stico da manga bufante do seu vestido rosa. E justificou: se eu entregasse a chave, Dona Yolanda abriria a porta para as cantoras e n\u00f3s n\u00e3o quer\u00edamos que elas entrassem. Elas n\u00e3o nos deixariam cantar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Descemos a escadaria que conduzia ao t\u00e9rreo, silenciosas. Quando a porta se abriu Dona Catarina decretou: &#8211; Hoje n\u00e3o tem bala nenhuma. Acabou! E n\u00e3o voltem aqui nunca mais, ouviram? Voc\u00eas est\u00e3o proibidas de subir ao coro!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Fomos embora, felizes. Fomos crian\u00e7as felizes. Pena que n\u00e3o virei cantora&#8230;<\/p>\n<div id=\"attachment_825\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-825\" class=\"size-medium wp-image-825\" title=\"Igreja dos Remedios\" src=\"http:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/FeiraIgrejaRemedios2-300x280.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"280\" srcset=\"https:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/FeiraIgrejaRemedios2-300x280.jpg 300w, https:\/\/lenidavid.com.br\/wp-content\/uploads\/2010\/07\/FeiraIgrejaRemedios2.jpg 572w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-825\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Leni David<\/p><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0As cantoras do coro \u00a0Leni David Eu devia ter uns doze anos quando comecei a participar do coro da igreja dos Rem\u00e9dios, junto com outras meninas, vizinhas da mesma rua. 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