{"id":868,"date":"2010-07-28T18:50:45","date_gmt":"2010-07-28T21:50:45","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=868"},"modified":"2011-09-15T21:17:24","modified_gmt":"2011-09-16T00:17:24","slug":"alguem-conhece-o-verbo-for","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=868","title":{"rendered":"Algu\u00e9m conhece o verbo FOR?"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\"><strong>Quem\u00a0explica\u00a0 \u00e9 Jo\u00e3o Ubaldo!<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 180px;\"><strong>O Verbo <em>For<\/em><\/strong><strong>\u00a0<\/strong><strong><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<strong>Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Vestibular de verdade era no meu tempo. J\u00e1 estou chegando, ou j\u00e1 cheguei, \u00e0 altura da vida em que tudo de bom era no meu tempo; meu e dos outros coroas. Acho inadmiss\u00edvel e mesmo chocante (no sentido antigo) um coroa n\u00e3o ser reacion\u00e1rio. Somos uma for\u00e7a hist\u00f3rica de grande valor. Se n\u00e3o ag\u00edssemos com o vigor necess\u00e1rio \u2014 evidentemente o condizente com a nossa condi\u00e7\u00e3o provecta \u2014, tudo sairia fora de controle, mais do que j\u00e1 est\u00e1. O vestibular, \u00e9 claro, jamais voltar\u00e1 ao que era outrora e talvez at\u00e9 desapare\u00e7a, mas julgo necess\u00e1rio falar do antigo \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es e lembr\u00e1-lo \u00e0s minhas coevas (ao dicion\u00e1rio outra vez; domingo, dia de exerc\u00edcio).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u00a0\u00a0\u00a0 O vestibular de Direito a que me submeti, na velha Faculdade de Direito da Bahia, tinha s\u00f3 quatro mat\u00e9rias: portugu\u00eas, latim, franc\u00eas ou ingl\u00eas e sociologia, sendo que esta n\u00e3o constava dos curr\u00edculos do curso secund\u00e1rio e a gente tinha que se virar por fora. Nada de cruzinhas, m\u00faltipla escolha ou mat\u00e9rias que n\u00e3o interessassem diretamente \u00e0 carreira. Tudo escrito t\u00e3o ruybarbosianamente quanto poss\u00edvel, com cita\u00e7\u00f5es decoradas, preferivelmente. Os textos em latim eram <em>As Catilin\u00e1rias<\/em> ou a <em>Eneida<\/em>, dos quais at\u00e9 hoje sei o comecinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u00a0\u00a0\u00a0 Havia provas escritas e orais. A escrita j\u00e1 dava nervosismo, da oral muitos nunca se recuperaram inteiramente, pela vida afora. Tirava-se o ponto (sorteava-se o assunto) e partia-se para o mart\u00edrio, insuper\u00e1vel por qualquer esporte radical desta juventude de hoje. A oral de latim era particularmente espetacular, porque se juntava uma multid\u00e3o, para assistir \u00e0 performance do saudoso mestre de Direito Romano Evandro Baltazar de Silveira. Franzino, sempre de colete e olhar vulpino (dicion\u00e1rio, dicion\u00e1rio), o mestre n\u00e3o perdoava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u2014 Traduza a\u00ed <em>quousque tandem, Catilina, patientia nostra<\/em> \u2014 dizia ele ao entanguido vestibulando.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u2014 &#8220;Catilina, quanta paci\u00eancia tens?&#8221; \u2014 retrucava o infeliz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Era o bastante para o mestre se levantar, p\u00f4r as m\u00e3os sobre o est\u00f4mago, olhar para a plat\u00e9ia como quem pede solidariedade e dar uma carreirinha em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 porta da sala.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u2014 Ai, minha barriga! \u2014 exclamava ele. \u2014 Deus, oh Deus, que fiz eu para ouvir tamanha asnice? Que pecados cometi, que ofensas Vos dirigi? Salvai essa alma de alim\u00e1ria. Senhor meu Pai!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u00a0Pode-se imaginar o resto do exame. Um amigo meu, que por sinal passou, chegou a enfiar, sem   sentir, as unhas nas palmas das m\u00e3os, quando o mestre sentiu duas dores de barriga seguidas, na sua prova oral. Comigo, a coisa foi um pouco melhor, eu falava um latinzinho e ele me deu seis, nota do mais alto coturno em seu elenco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">O maior p\u00fablico das provas orais era o que j\u00e1 tinha ouvido falar alguma coisa do candidato e vinha v\u00ea-lo &#8220;dar um <em>show<\/em>&#8220;. Eu dei <em>show<\/em> de portugu\u00eas e ingl\u00eas. O de portugu\u00eas at\u00e9 que foi moleza, em certo sentido. O professor Jos\u00e9 Lima, de p\u00e9 e tomando um cafezinho, me dirigiu as seguintes palavras aladas:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u2014 Dou-lhe dez, se o senhor me disser qual \u00e9 o sujeito da primeira ora\u00e7\u00e3o do Hino Nacional!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u2014 As margens pl\u00e1cidas \u2014 respondi instantaneamente e o mestre quase deixa cair a x\u00edcara.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u2014 Por que n\u00e3o \u00e9 indeterminado, &#8220;ouviram, etc.&#8221;?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u2014 Porque o &#8220;as&#8221; de &#8220;as margens pl\u00e1cidas&#8221; n\u00e3o \u00e9 craseado. Quem ouviu foram as margens pl\u00e1cidas. \u00c9 uma an\u00e1strofe, entre as muitas que existem no hino. &#8220;Nem teme quem te adora a pr\u00f3pria morte&#8221;: sujeito: &#8220;quem te adora.&#8221; Se pusermos na ordem direta&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u2014 Chega! \u2014 berrou ele. \u2014 Dez! V\u00e1 para a gl\u00f3ria! A Bahia ser\u00e1 sempre a Bahia!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Quis o ir\u00f4nico destino, uns anos mais tarde, que eu fosse professor da Escola de Administra\u00e7\u00e3o da Universidade Federal da Bahia e me designassem para a banca de portugu\u00eas, com prova oral e tudo. Eu tinha fama de professor carrasco, que at\u00e9 hoje considero injust\u00edssima, e ficava muito incomodado com aqueles rapazes e mo\u00e7as p\u00e1lidos e tr\u00eamulos diante de mim. Uma bela vez, chegou um sem o menor sinal de nervosismo, muito elegante, palet\u00f3, gravata e abotoaduras vistosas. A prova oral era best\u00edssima. Mandava-se o candidato ler umas dez linhas em voz alta (sim, porque alguns n\u00e3o sabiam ler) e depois se perguntava o que queria dizer uma palavra trivial ou outra, qual era o plural de outra e assim por diante. Esse mal sabia ler, mas n\u00e3o perdia a pose. N\u00e3o acertou a responder nada. Ent\u00e3o, eu, carrasco fict\u00edcio, peguei no texto uma frase em que a palavra &#8220;for&#8221; tanto podia ser do verbo &#8220;ser&#8221; quanto do verbo &#8220;ir&#8221;. Pronto, pensei. Se ele distinguir qual \u00e9 o verbo, considero-o um g\u00eanio, dou quatro, ele passa e seja o que Deus quiser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u2014 Esse &#8220;for&#8221; a\u00ed, que verbo \u00e9 esse?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Ele considerou a frase longamente, como se eu estivesse pedindo que resolvesse a quadratura do c\u00edrculo, depois ajeitou as abotoaduras e me encarou sorridente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u2014 Verbo for.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u2014 Verbo o qu\u00ea?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u2014 Verbo for.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u2014 Conjugue a\u00ed o presente do indicativo desse verbo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u2014 Eu fonho, tu f\u00f5es, ele f\u00f5e &#8211; recitou ele, imp\u00e1vido. \u2014 N\u00f3s fomos, v\u00f3s fondes, eles f\u00f5em.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u00a0\u00a0\u00a0 N\u00e3o, dessa vez ele n\u00e3o passou. Mas, se perseverou, deve ter acabado passando e hoje h\u00e1 de estar num posto qualquer do Minist\u00e9rio da Administra\u00e7\u00e3o ou na equipe econ\u00f4mica, ou ainda aposentado como maraj\u00e1, ou as tr\u00eas coisas. Vestibular, no meu tempo, era muito mais divertido do que hoje e, nos dias que correm, devidamente diplomado, ele deve estar fondo para quebrar. F\u00f5es tu? Com quase toda a certeza, n\u00e3o. Eu tampouco fonho. Mas ele f\u00f5e.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u00a0Esta cr\u00f4nica foi publicada no jornal &#8220;O Globo&#8221; (e em outros jornais) na edi\u00e7\u00e3o de domingo, 13 de setembro de 1998 e integra o livro &#8220;O Conselheiro Come&#8221;, Ed Nova Fronteira &#8211; Rio de Janeiro, 2000, p\u00e1g. 20.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Quem\u00a0explica\u00a0 \u00e9 Jo\u00e3o Ubaldo! 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