{"id":947,"date":"2010-08-12T14:59:21","date_gmt":"2010-08-12T17:59:21","guid":{"rendered":"http:\/\/lenidavid.com.br\/?p=947"},"modified":"2011-09-15T18:26:45","modified_gmt":"2011-09-15T21:26:45","slug":"%e2%80%a6oito-nove-dez-la-vou-eu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/lenidavid.com.br\/?p=947","title":{"rendered":"\u2026Oito, nove, dez. L\u00e1 vou eu!"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>&#8220;Todo ser humano, por mais adulto que seja, n\u00e3o adianta: traz sempre dentro de si uma crian\u00e7a.&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 300px;\"><strong><em>Martha Medeiros<\/em><\/strong><em><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">\u00a0Estava caminhando num parque quando vi um homem encostado de lado numa \u00e1rvore, inerte, quase sem respirar. Que coisa estranha, um marmanjo encolhido junto a um tronco. N\u00e3o sendo um maluco, s\u00f3 podia ser algu\u00e9m se escondendo. E logo descobri de quem. Ele estava se escondendo de tr\u00eas ador\u00e1veis salsichas. Estou falando daquela ra\u00e7a de cachorro, daschhund, e n\u00e3o de embutidos. Os tr\u00eas cachorrinhos estavam paran\u00f3icos\u00a0 atr\u00e1s do dono, au, au, au, onde ele est\u00e1, onde nosso dono se meteu?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Achooou!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Ficaram todos abanando o rabo, felizes e aliviados, inclusive o dono. Na hora me lembrei de como   \u00e9 bom brincar de esconde-esconde. \u00c9 um ensaio pr\u00e1tico sobre o poder da presen\u00e7a. Voc\u00ea some de vista e ficam todos te procurando: \u00e9 ou n\u00e3o \u00e9 uma sensa\u00e7\u00e3o incr\u00edvel? Mais tarde voc\u00ea treina isso com namorados e namoradas: fica um dia sem ligar e o mundo desaba. Onde voc\u00ea estava, por que n\u00e3o retornou minhas liga\u00e7\u00f5es? E voc\u00ea: ahn, hum, \u00e9 que fiquei sem bateria no celular. Uau, quanta afli\u00e7\u00e3o e quanta saudade voc\u00ea provocou. Mesmo manjada, a estrat\u00e9gia ainda funciona.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Mas e quando n\u00e3o funciona?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Lembro de uma vez, no auge da inf\u00e2ncia, em que me escondi t\u00e3o bem, mas t\u00e3o bem, que ningu\u00e9m me achou. Pior: pararam de me procurar. Foram tomar um lanche, ver televis\u00e3o. E eu ali, encolhida atr\u00e1s de um arbusto, ou enclausurada num s\u00f3t\u00e3o, ou espremida atr\u00e1s de uma porta (j\u00e1 nem lembro onde eu estava), s\u00f3 sei que desistiram de brincar e ningu\u00e9m vinha me salvar da solid\u00e3o. Tem coisa mais frustrante do que voc\u00ea ter que sair do seu esconderijo e se entregar para quem n\u00e3o tem mais nenhum interesse em lhe encontrar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Aquele homem atr\u00e1s da \u00e1rvore devia ter uns 55 anos. Ou mais. Ou menos: entre os 30 e os 60, todos hoje t\u00eam a mesma cara. Enfim, ele n\u00e3o era nenhum garoto. Mas sabia da import\u00e2ncia de ser procurado. De ter sua aus\u00eancia sentida, de testar sua ascend\u00eancia perante os outros, de provar para si mesmo que \u00e9 imprescind\u00edvel, que sua exist\u00eancia n\u00e3o \u00e9 indiferente aos demais, que ele pode se sentir um pequeno deus por alguns m\u00edseros minutos, que \u00e9 capaz de fazer com que algu\u00e9m se descabele diante da impossibilidade de rev\u00ea-lo, ou seja (e usando de menos dramatismo): aquele homem conhecia o prazer indescrit\u00edvel que \u00e9 ver algu\u00e9m sentindo sua falta. Se for algu\u00e9m do sexo oposto, prazer triplicado. Mas vale para qualquer algu\u00e9m: um amigo, um parente, um ex-s\u00f3cio, um parceiro de cela. At\u00e9 mesmo tr\u00eas c\u00e3ezinhos salsicha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Era um homem bem-posto na vida, talvez um empres\u00e1rio, um profissional liberal, um homem com responsabilidades, que declara imposto de renda, que usa gravata nos dias \u00fateis, que esmurra a mesa quando alterado. Pois estava ele ali, numa manh\u00e3 de s\u00e1bado, escondidinho atr\u00e1s de uma \u00e1rvore num parque p\u00fablico, provando que todo ser humano, por mais adulto que seja, n\u00e3o adianta: traz sempre dentro de si uma crian\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 30px;\">Fonte: Jornal \u201cZero Hora\u201d n\u00ba. 15756, 12\/10\/2008.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &#8220;Todo ser humano, por mais adulto que seja, n\u00e3o adianta: traz sempre dentro de si uma crian\u00e7a.&#8221; Martha Medeiros \u00a0Estava caminhando num parque quando vi um homem encostado de lado numa \u00e1rvore, inerte, quase sem respirar. 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