Edmundo Caroso

Achei que, com o Carnaval chegando (o Mardi Gras là na França), Leni tinha gostado homenagear seu grande amigo Edmundo Carôso, escritor e poeta, autor de várias músicas do Carnaval da Bahia. Então publico uma crônica que Leni escreveu para lembrar que amizade de verdade  não enfraquece nem com a distância, nem com o tempo! Denis

Edmundo Carôso

 

SOBRE UMA CARTA QUE RECEBI COM NOVE ANOS DE ATRASO.

Leni David

Tenho um amigo cujo nome é Edmundo Carôso. Conheci esse rapaz em meados dos anos 70, quando era estudante do curso de Letras. Ele estudava Economia e era aluno dedicado, segundo comentavam. Fazíamos parte de um grupo de amigos comuns que gostava de música, poesia, política e violão. Mas Edmundo abandonou a faculdade para se dedicar à música.

Naquele tempo nos reuníamos nos fins de semana para tocar, cantar, beber e comer coisas consideradas exóticas como: maniçoba, mocotó (no bar de Beto), baião-de-dois (feito por mim) e churrasco, cujo fogo até era aceso com cadeiras da sala de jantar. Embora trabalhássemos, não tínhamos muito dinheiro e, na maioria das vezes, nos cotizávamos para pagar o de comer e o de beber.

Essa convivência quase diária do nosso grupo durou cerca de cinco ou seis anos, até que Nadja foi estudar em Saragoça, onde conheceu e casou com Inigo; Edmundo foi para a Espanha algum tempo depois e quando voltou se dedicou à música e à produção cultural em Salvador. Ra Nascimento, parceiro de Edmundo em muitas composições, também trocou a cidade interiorana pela capital e se tornou músico profissional. Alguns se formaram em Direito, outros em Engenharia ou Medicina. Outros, ainda, se tornaram empresários ou pais de família. Eu, do meu lado, recebi uma bolsa do governo francês e fui fazer um estagio na França.

*****

A verdade é que mesmo com a desconstrução do grupo, visto que cada um tomou seu rumo, os encontros (quando aconteciam) e a amizade permaneceram intactos.

Há cerca de três meses encontrei Edmundo novamente, na Internet. Fiquei feliz e escrevi pra ele (sem esperança de receber resposta), pois o blog estava desativado desde o final de 2007. Além disso, havia cerca de nove anos que não nos víamos; a última vez que nos encontramos foi num jantar em sua casa, onde comemos um soberbo Bacalhau à Cravolândia preparado pelo anfitrião. Nessa época eu morava na França e de volta a Paris escrevi para Edmundo. Primeiro, para dar informações sobre Lavoisier, pois ele havia me pedido isso; em seguida, para contar o sucesso que havia sido a degustação do Bacalhau à Cravolândia com a francesada. Realizei a receita com muito esmero e foi um sucesso!

Só que nunca recebi resposta dessa carta. Há pouco tempo, porém, tive uma grande surpresa: Edmundo publicou uma tradução de “O luar de Pontevedra”, poema de sua autoria traduzido por mim e sobre o qual comentei no blog. Nesse final de semana, “vasculhando” os blogs parceiros da Abril encontrei um outro post, “Ainda a propósito de Lene”, onde ele publica uma carta que me escreveu há nove anos atrás! O susto foi ainda maior pois leio o blog de Edmundo diariamente e, por incrível que pareça, não vi essa publicação. Como passei alguns dias “desconfigurada”, peço desculpas ao meu amigo.

Ele inicia o seu texto assim:

“Eu tenho um poema antigo que diz: ninguém me escreve/ eu também/ eu não escrevo pra ninguém”.

“Mentira! Escrevo muito, centenas de cartas, só que nunca as mando.

Dentre estas existe uma que escrevi pra Leni quando ela morava em Paris (e viveu muitos anos por lá) depois de uma passagem dela lá por casa, numa de suas vindas ao Brasil e respondendo a missiva que me mandou logo ao chegar (ou terá sido um email?). Foi nessa ida lá em casa que ela me mostrou a tradução que publiquei aqui e me deu de presente alguns discos como também me fez portador de uns pra Ra Nascimento, meu parceiro e amigo de vida toda.

Portanto, para acabar de vez com essa fama injusta que me persegue, a de não remeter as cartas que escrevo, e mesmo já depois de muitos anos de Leni ter voltado para o Brasil, publico aqui a carta que não lhe mandei, esperando que ela não seja mal educada e me responda de pronto”.

NUNCA REMETI, SÓ PRA MANTER A TRADIÇÃO”.

Querida Leni:

Dessa vez ficou mais do que claro: você se internacionalizou de vez. “Disco duro”. Essa, realmente é fantástica, coisa de primeiro mundo de quem já está arejado pelo clima das Oropas. Aqui nesse mundinho só quem fica duro é pau; e pobre pra não perder o costume. O disco é rígido por essas plagas mas que fica charmoso duro, fica.

Adorei saber que você já deu seu ar de alquimista na receita do Bacalhau a Cravolândia. Nas suas mãos de fadas o fato de não encontrar maxixe em Paris é fichinha. Veja que você, nem se apertou nem nada e já tascou abóbora no manjar. Quem tem talento é assim mesmo, não se aperta com nada. E por falar em talento – nesse caso, culinário e que você tem de sobra – exijo, imponho e esperneio pela receita do Baião de Dois que persegue meus sonhos mais secretos desde quase duas décadas quando nenhum churrasco nos vencia. Lembra que não ficava cadeira sobre cadeira quando faltava carvão na churrasqueira? Pois é, em nome daquela época e desses vinte anos de amizade, me mande a receita e ponto final.

Você vai me dizer que sou um besta e que não cumpro o prometido já que ainda não ouvi Cezária Évora e Buena Vista, que deveria estar em alguma estante lá da Princesa Isabel fazendo Rá Nascimento se intoxicar com alguma coisa, finalmente, diferente de sua própria obra. Continua lá em casa – tudo como naquele dia em que jantamos, rimos e falamos poesia.

No que diz respeito a primeira afirmação você teria razão – ainda que em parte pois, mais que besta – sou um renomado imbecil mas não é por isso que não ouvi Cezária. Tenho andado acorrentado no porão da poesia – já entreguei o segundo livros para a Editora (O Verdume & O Redemunho, que será lançado em Janeiro, tudo por conta dela) e não tenho cabeça pra outra coisa. Vc sabe como é, a música me toma e se eu misturar as coisas babau.

Mas quanto a segunda, a história já é outra: a preguiça de Rá, apesar de que eu tivesse lhe avisado logo no outro dia que tinha encomenda lá em casa, não deixou pegar o disco e já ando pensando em usar a prerrogativa do uso capião e aí ele vai ver uma coisa, o quanto vai ser difícil voltar a ter a propriedade da relíquia.

Agradeço as informações sobre Lavoisier, vão me quebrar um galhão. Na sabia que o dito foi o descobridor do oxigênio. Devemos a ele respirar com conhecimento. Falando sério “Rien ne se perd, rien ne se crée, tout se transforme” será a epígrafe de um livro que já tenho pronto há algum tempo que se chama Cadernos Lavoisier Exatamente nesse espírito de se reaproveitar todo o possível é que revi meus poemas mofados na gaveta, que não cabiam em nenhum dos livros que tenho terminado e os reuni nessa salada pela qual tenho muito carinho. A ópera da Cidade faz parte dele. Aliás, cadê o original que ficou de me mandar? Vê se você escaneia e me remete por email. Não tenho o dito cujo. Retrabalhei o poema numa versão posterior a primeira.

Por falar em poema, a primeira vista, depois de ter pedido a alguns amigos que sabem rudimentos de francês para ler a tradução pra mim, adorei. Mas gostaria, com a sua permissão de interagir um pouco com você no resultado final. O francês é um idioma lindo e você me deu muita honra e alegria ao traduzir meu poema de forma tão bela.

Vou pedir a Lu para ler pra mim pois naquela construção poética, o ritmo, mas do que tudo e a todo custo, terá de ser preservado. E me parece que, pelo menos no primeiro verso quando vc opta por utilizar “Le clair de lune” compromete um pouco o ritmo da frase o que já não acontece em “Ah, clair de lune de surprises !” Talvez aí esteja o segredo: a alternância entre “le lune” e “clair de lune”, quando necessário, que dará mais charme a tradução preservando seu ritmo. Falo tudo como um leigo que foi assessorado por alguns gagos lendo em Francês. Sinceramente terei que conversar com Lu, dissecando tudo para chegar a uma conclusão mais sólida. Quanto ao conteúdo, pelo menos sobre o ponto de vista dos animais que me assessoraram na tradução literária, me parece que você conseguiu deixar intacto. De todas as maneiras, fiquei muito feliz, você, não importa o que aconteça com minha arte de agora por diante, será sempre a primeira pessoa que me traduziu pro Francês.

Para terminar, quero fazer dois pedidos. Leninho, querida amiga, prometa que nunca mais deixaremos nossa amizade fenecer no mar tão rico de nossas virtudes e defeitos. Nos amamos muito e isso é o que importa e – se não somos perfeitos – temos que sublimar também as imperfeições do outro. O que importa de verdade é que somos amigos e irmãos, e isso basta. Falo essas bobagens mas por mim do que por você, que tem um coração de ouro e sempre foi mais gente do que eu.

Outra coisa: gostaria muito de manter regular correspondência (troca de e-mails) falando de tudo que nos venha ao coração: da cultura, dos filhos, da vida, dos amores e de nós mesmos. Sem esquecer a música que sempre foi nosso elo.

NUNCA REMETI, SÓ PRA MANTER A TRADIÇÃO.

Problema de troco

Leni David

Seu João era conhecido como “mão de onça” na cidade em que vivia. Era um senhor alto, pele clara, olhos acinzentados, cabelos cortados curtos, voz de trovão. Não sei se tinha esse apelido porque tinha as mãos grandes, ou se tinha algo a ver com sovinice. Só sei que ninguém ousava chamá-lo assim. Apesar da sua fama de briguento, Seu João era muito querido na cidade.

Havia um café na praça principal, onde os fazendeiros da região se reuniam para conversar e negociar, sobretudo pela manhã. Em frente ao café havia uma banca de jornais e Seu João pegava o seu jornal, todos os dias, antes de ir para casa almoçar. Dobrava-o ao meio, enfiava debaixo do braço, ajeitava o chapéu no alto da cabeça e entrava na sua Rural Willys.

A mania de substituir o troco por bombons começou a ser disseminada, mesmo nas pequenas cidades do interior e o dono da banca de jornais adotou-a. No primeiro dia em que Seu João recebeu aquele troco inusitado, perguntou quanto valia aquilo e o vendedor informou que era equivalente a vinte centavos (de cruzeiro) o que, finalmente, não valia muita coisa.

O tempo passava, Seu João comprava o jornal e colocava as balinhas que recebia como troco, no bolso do paletó. Em casa depositava-as num recipiente sobre a escrivaninha e avisava aos familiares que não tocassem nos bombons, pois precisaria deles.

Um dia ele chegou à banca de jornais e perguntou:

- Quanto é o jornal, Seu Pelé?

E o vendedor, apesar de surpreso, respondeu solícito:

- Dois cruzeiros e oitenta centavos, Seu João!

Ele enfiou a mão no bolso, retirou um punhado de balas, que depositou sobre as revistas, e pediu ao vendedor:

- Confira aí, Seu Pelé; veja se é isso mesmo.

O vendedor arregalou os olhos, espantado e, sem entender o que se passava, questionou:

- Mas o que é isso, Seu João, pra que eu quero esses bombons?

- Ora, Seu Pelé, durante todo esse tempo o senhor me deu essas balinhas como troco. Já que elas valem dinheiro, guardei-as para pagar o jornal. Algum problema?

Seu Pelé coçou a cabeça, em silêncio, e recebeu os bombons.

Agora respondam: Seu João era sovina, ou sabia valorizar o seu dinheiro?

Museu da Arte Moderna

mamcestralidade-ABERTURA

O Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM-BA) preparou uma programação especial para o mês da consciência negra. O projeto intitulado MAMcestralidade está repleto de atividades, que vão desde palestras em combate a intolerância religiosa à oficinas e atrações musicais voltadas para a temática.

A abertura do projeto envolve ainda a vernissage da exposição ‘Caminhos’ do artista e curador Roddolfo Carvalho.

O evento é gratuito.

O que: Abertura do MAMcestralidade
Quando: 10 de novembro, a partir das 18h
Onde: Galeria 3 do Museu de Arte Moderna da Bahia – Av. Contorno, s/n – Solar do Unhão, Salvador – BA

Pensée des morts

Lamartine

Voilà les feuilles sans sève
Qui tombent sur le gazon
Voilà le vent qui s’élève
Et gémit dans le vallon
Voilà l’errante hirondelle
Qui rase du bout de l’aile
L’eau dormante des marais
Voilà l’enfant des chaumières
Qui glane sur les bruyères
Le bois tombe des forêts

C’est la saison où tout tombe
Aux coups redoublés des vents
Un vent qui vient de la tombe
Moissonne aussi les vivants
Ils tombent alors par mille
Comme la plume inutile
Que l’aigle abandonne aux airs
Lorsque des plumes nouvelles
Viennent réchauffer ses ailes
A l’approche des hivers

C’est alors que ma paupière
Vous vit pâlir et mourir
Tendres fruits qu’à la lumière
Dieu n’a pas laissé mûrir
Quoique jeune sur la terre
Je suis déjà solitaire
Parmi ceux de ma saison
Et quand je dis en moi-même
“Où sont ceux que ton cœur aime?”
Je regarde le gazon

C’est un ami de l’enfance
Qu’aux jours sombres du malheur
Nous prêta la providence
Pour appuyer notre cœur
Il n’est plus : notre âme est veuve
Il nous suit dans notre épreuve
Et nous dit avec pitié
“Ami si ton âme est pleine
De ta joie ou de ta peine
Qui portera la moitié ?”

C’est une jeune fiancée
Qui, le front ceint du bandeau
N’emporta qu’une pensée
De sa jeunesse au tombeau
Triste, hélas ! dans le ciel même
Pour revoir celui qu’elle aime
Elle revient sur ses pas
Et lui dit : “Ma tombe est verte !
Sur cette terre déserte
Qu’attends-tu ? Je n’y suis pas !”

C’est l’ombre pale d’un père
Qui mourut en nous nommant
C’est une sœur, c’est un frère
Qui nous devance un moment
Tous ceux enfin dont la vie
Un jour ou l’autre ravie,
Emporte une part de nous
Murmurent sous la pierre
“Vous qui voyez la lumière
De nous vous souvenez vous?”

Voilà les feuilles sans sève
Qui tombent sur le gazon
Voilà le vent qui s’élève
Et gémit dans le vallon
Voilà l’errante hirondelle
Qui rase du bout de l’aile
L’eau dormante des marais
Voilà l’enfant des chaumières
Qui glane sur les bruyères
Le bois tombé des forêts

Só se vê na Bahia…

 

 Para me fazer perdoar pela longa ausência (involuntária) publico hoje um clip produzido no verão passado pela TV Bahia. No mesmo estão incluídos três vídeos nos quais a mesma música é cantada com arranjos e artistas diferentes abordando aspectos originais da cultura baiana, do litoral e do interior do estado. Vale a pena ver e ouvir. Com um abraço forte, mesmo com um pouco de atraso,  Feliz Ano Novo!

 

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Evolução do carnaval da Bahia III

 

Os blocos de trios

Aurélio Schommer

O Bloco Internacionais é de 1962. A ele se seguiram o Corujas, em 1963, As Muquiranas, em 1966, Camaleão (1978), Eva e Cheiro de Amor (1980) e Crocodilo (1985), além de dezenas de outros. Se, no início, os trios viviam apenas de publicidade, com os blocos e suas cordas passaram a ter uma fonte de receita ainda mais significativa, chegando a faturar milhões em cada carnaval. Essa fórmula (trio + patrocínio + bloco com cordas) será igualmente exportada para micaretas e outras festas, multiplicando as receitas da indústria do carnaval baiano.

 Alguns blocos geram bandas, que gravam discos de grande sucesso. Nova fonte de receita e mais divulgação para a produção musical baiana, que atinge o auge nos últimos 30 anos. Por falar em música, o chamado axé não é um gênero, mas uma marca da música baiana que incluiu o frevo, o samba, o rock, o pop, a balada e, acreditem, marchas de bandas militares, onde se formaram muitos dos músicos que fariam os primeiros carnavais de trio. O axé é sobretudo a mistura de todos esses ritmos, reinventados. É criação permanente, a cada ano diferente, mas sempre respeitando a essência da forma de brincar em torno do trio elétrico, o seu dançar e pular típicos.

Nenhum grupo representa melhor o carnaval baiano atual do que a Timbalada, fundado em 1993 por Carlinhos Brown, que envolve a comunidade do Candeal. Nele, tudo se cria e recria com muita velocidade, com grande apuro técnico e artístico.

O modelo do carnaval baiano recebe muitas críticas de quem fica de fora da corda e até hoje não conseguiu emplacar com sucesso como espetáculo televisivo, residindo aí sua grande limitação. A grandiosidade dos trios e o fluxo de foliões, por outro lado, tornaram as ruas estreitas, apertadíssimas. A possibilidade de mudar o circuito para locais mais amplos, porém, é temida em função da perda de tradição que representaria. A rua faz parte do carnaval baiano desde os primeiros carros alegóricos, do corso.

Como preservar tradição, melhorar o acesso do público não pagante de abadás e camarotes, e ganhar espaço físico para o trio sem perda de identidade são desafios que se colocam para nosso carnaval. Mas a criatividade do baiano haverá de dar respostas satisfatórias, como sempre aconteceu. Surgido entre nós como divertimento da elite, imposto como alternativa organizada contra o violento entrudo, o carnaval tornou-se parte de nossa cultura, símbolo de nossa identidade étnica e fonte de atração de recursos e turistas. Preservar o que a festa tem de melhor e torná-la cada vez mais bonita e representativa de nossas raízes depende de nós.

 

 

Dodô Osmar e o frevo novo

“Todo mundo na praça e manda a gente sem graça pro salão”, diz o verso de Caetano Veloso. A metade do século XX está para chegar e o carnaval nas muitas praças populares, nos bairros e em alguns pontos do centro, vai se tornando manifestação de massa aceita e aplaudida, enquanto a elite tradicional mantém os bailes nos salões. O corso entra em decadência, mas será salvo por uma invenção que irá unir elite e povo num só carnaval: o trio elétrico.

 O trio é de 1951, obra do engenheiro Temístocles Aragão. Mas ele não teria criado a invenção se não fosse uma dupla inventar a guitarra elétrica brasileira (já existia nos Estados Unidos), adaptada a um automóvel, no ano anterior, obra de Adolfo Nascimento (Dodô) e Osmar Macedo, que também criaram o ritmo “frevo novo”, adaptação do tradicional ritmo pernambucano à nova instrumentação.

O sucesso da novidade foi instantâneo e não apenas mudou radicalmente o modo predominante de se brincar na Bahia como daria início, anos depois, à exportação da folia baiana para todo Brasil e exterior.

 O trio rompe os conceitos de espaços privados, pois atrás dele, pulando, vão gentes de todas as classes sociais, dançando e pulando de todas as maneiras possíveis, ao som de ritmos misturados, o que bem mais tarde será chamado de axé (em iorubá = energia vital).

 Mas o trio, para se impor, precisava de patrocínio. Em 1952, a Fratelli Vita, fábrica baiana de refrigerantes, patrocina Dodô e Osmar, que inauguram, no mesmo ano, o caminhão no lugar da picape e da “fubica”, como fora batizado o primeiro carro, um Ford 1929, da dupla. Nesse mesmo ano, surge a micareta de Feira de Santana, logo em seguida a de Alagoinhas, inspiradas pelas novidades.

 Assim, vitaminado pelos patrocínios e amado pelos foliões, o trio não para de crescer e caracteriza definitivamente o carnaval baiano aos olhos dos brasileiros e estrangeiros, que comparecem em grande número a nosso carnaval. O carnaval de trio, além das micaretas e outras festas, passa a ser a forma de festejar predominante de muitas outras cidades, todas tendo a Bahia como referência, um sucesso que enche de orgulho o povo baiano.

Aurélio Schommer –  É natural de Caxias do Sul – RS (1967), radicado em Salvador desde 1995, é escritor e vice-presidente do Conselho Estadual de Cultura da Bahia. Em 2011, foi o curador da 1ª edição da Flica, de que é fundador e participante da curadoria. É ex-presidente da Câmara Bahiana do Livro – CBaL (gestão 2009/2010). Autor de “História do Brasil vira-lata” (Casarão do Verbo – 2012), tem oito títulos publicados, entre romances, relatos históricos, livro de contos e o Dicionário de Fetiches (2008), obra de referência. Participa de um quadro periódico sobre literatura na rádio Educadora, de Salvador.

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Evolução do carnaval da Bahia II

 

O carnaval dos afoxés, blocos, cordões e batucadas

                                                           Aurélio Schommer

Data de 1892 a primeira participação de descendentes de africanos no carnaval oficial da Bahia, através dos clubes Embaixada Africana e Pândegos d’África. Incentivada e saudada pela imprensa por conta do “bom comportamento” dos negros, a participação dos clubes africanizados seguia a linha de negar a bagunça do entrudo em nome da ordem dos desfiles. Nem todos os afrodescendentes, porém, podiam participar. Fazer parte de um clube era privilégio de mulatos de classe média.

Os demais afrodescendentes queriam brincar o carnaval a sua maneira, organizando-se em afoxés e “batuques”, como a mídia classificava as músicas tocadas por eles. Em 1905, a Polícia baixa portaria proibindo os “batuques”, fazendo cumpri-la com rigor.

A organização de blocos, cordões e batucadas foi a resposta popular às proibições. Eles desfilavam e promoviam bailes de rua nos bairros periféricos, na Baixa dos Sapateiros e Terreiro de Jesus, longe dos olhos da elite. Passaram a ser tolerados justamente por se distanciarem do centro, a área nobre entre o Campo Grande e a rua Chile, ocupada pelos corsos.

Com o decorrer da primeira metade do século XX, o patrocínio de casas comerciais e das primeiras emissoras de rádio baianas deu gás e aceitação aos blocos, onde o samba e outros ritmos apropriados ao predomínio dos instrumentos de percussão se destacavam como trilha sonora. A tradição chegou até nossos dias a partir deles, sendo os blocos afro e o chamado Carnaval Ouro Negro formas modernas de representar esses antigos carnavais populares.

Se o afoxé é uma tradição muito antiga, é com a criação do Filhos de Gandhi, em 1949, que ganha expressão de público e atrai a curiosidade e, mais adiante, a fidelidade de baianos e visitantes.

A partir dos anos 1970, surgem novos blocos afro, com refinada produção musical e a proposta de resgatar as raízes e o orgulho africanos de nossa gente. O Ilê Ayiê, da Liberdade, é de 1974. Com três mil componentes, 147 deles na bateria, enche as ruas do circuito oficial do carnaval. Mas é o Olodum, fundado em 1979 no Pelourinho, quem irá projetar essa forma de fazer música e carnaval para o mundo.

Foi um sucesso estrondoso, projetou o nome de nossa terra para a aldeia global, fenômeno de rápida disseminação, que contribui enormemente para a atração de turistas.

Logo houve a fusão entre trio e bloco afro, o que gerou novos sucessos, como o Araketu, fundado em 1980. Na medida desse sucesso, a baianidade passa a ser sinônimo de negritude, marca até hoje mantida.

 Aurélio Schommer – É natural de Caxias do Sul – RS (1967), radicado em Salvador desde 1995, é escritor e vice-presidente do Conselho Estadual de Cultura da Bahia. Em 2011, foi o curador da 1ª edição da Flica, de que é fundador e participante da curadoria. É ex-presidente da Câmara Bahiana do Livro – CBaL (gestão 2009/2010). Autor de “História do Brasil vira-lata” (Casarão do Verbo – 2012), tem oito títulos publicados, entre romances, relatos históricos, livro de contos e o Dicionário de Fetiches (2008), obra de referência. Participa de um quadro periódico sobre literatura na rádio Educadora, de Salvador.

Poesia em prosa

 

Carta de Caymmi para Jorge Amado

“Jorge, meu irmão, são onze e trinta da manhã e terminei de compor uma linda canção para Yemanjá, pois o reflexo do sol desenha seu manto em nosso mar, aqui na Pedra da Sereia. Quantas canções compus para Janaína, nem eu mesmo sei, é minha mãe, dela nasci. Talvez Stela saiba, ela sabe tudo, que mulher, duas iguais não existem, que foi que eu fiz de bom para merecê-la? Ela te manda um beijo, outro para Zélia e eu morro de saudade de vocês. Quando vierem, me tragam um pano africano para eu fazer uma túnica e ficar irresistível.

Ontem saí com Carybé, fomos buscar Camafeu na Rampa do Mercado, andamos por aí trocando pernas, sentindo os cheiros, tantos, um perfume de vida ao sol, vendo as cores, só de azuis contamos mais de quinze e havia um ocre na parede de uma casa, nem te digo. Então ao voltar, pintei um quadro, tão bonito, irmão, de causar inveja a Graciano. De inveja, Carybé quase morreu e Jenner, imagine!, se fartou de elogiar, te juro. Um quadro simples: uma baiana, o tabuleiro com abarás e acarajés e gente em volta. Se eu tivesse tempo, ia ser pintor, ganhava uma fortuna. O que me falta é tempo para pintar, compor vou compondo devagar e sempre, tu sabes como é, música com pressa é aquela droga que tem às pampas sobrando por aí.

O tempo que tenho mal chega para viver: visitar Dona Menininha, saudar Xangô, conversar com Mirabeau, me aconselhar com Celestino sobre como investir o dinheiro que não tenho e nunca terei, graças a Deus, ouvir Carybé mentir, andar nas ruas, olhar o mar, não fazer nada e tantas outras obrigações que me ocupam o dia inteiro. Cadê tempo pra pintar?

Quero te dizer uma coisa que já te disse uma vez, há mais de vinte anos quando te deu de viver na Europa e nunca mais voltavas: a Bahia está viva, ainda lá, cada dia mais bonita, o firmamento azul, esse mar tão verde e o povaréu. Por falar nisso, Stela de Oxóssi é a nova iyalorixá do Axé e, na festa da consagração, ikedes e iaôs, todos na roça perguntavam onde anda Obá Arolu que não veio ver sua irmã subir ao trono de rainha? Pois ontem, às quatro da tarde, um pouco mais ou menos, saí com Carybé e Camafeu a te procurar e não te encontrando, indagamos: que faz ele que não está aqui se aqui é seu lugar? A lua de Londres, já dizia um poeta lusitano que li numa antologia de meu tempo de menino, é merencória. A daqui é aquela lua. Por que foi ele para a Inglaterra? Não é inglês, nem nada, que faz em Londres? Um bom filho-da-puta é o que ele é, nosso irmãozinho.

Sabes que vendi a casa da Pedra da Sereia? Pois vendi. Fizeram um edifício medonho bem em cima dela e anunciaram nos jornais: venha ser vizinho de Dorival Caymmi. Então fiquei retado e vendi a casa, comprei um apartamento na Pituba, vou ser vizinho de James e de João Ubaldo, daquelas duas ‘línguas viperinas, veja que irresponsabilidade a minha.

Mas hoje, antes de me mudar, fiz essa canção para Yemanjá que fala em peixe e em vento, em saveiro e no mestre do saveiro, no mar da Bahia. Nunca soube falar de outras coisas. Dessas e de mulher. Dora, Marina, Adalgisa, Anália, Rosa morena, como vais morena Rosa, quantas outras e todas, como sabes, são a minha Stela com quem um dia me casei te tendo de padrinho. A bênção, meu padrinho, Oxóssi te proteja nessas inglaterras, um beijo para Zélia, não esqueçam de trazer meu pano africano, volte logo, tua casa é aqui e eu sou teu irmão Caymmi”.

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CLUBE DE FOTOGRAFIA DE FEIRA DE SANTANA REALIZA PROJETO FOTOGRÁFICO “CANUDOS, ESSA HISTÓRIA NÃO PODE MORRER!”

 

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Veiculado pela imprensa estadual e nacional, acontece um fenômeno natural surpreendente para nós fotógrafos e que fez reaparecer parte da história do Brasil, a Guerra de Canudos.

A Guerra de Canudos ou Campanha de Canudos foi o confronto entre quase a totalidade do Exército Brasileiro e os integrantes de um movimento popular de fundo sócio-religioso liderado por Antônio Conselheiro, que durou de 1896 a 1897, na então comunidade de Canudos, no norte do estado da Bahia, nordeste do Brasil. Localizada na entrada para o Raso da Catarina, devido ao longo período de estiagem no sertão, voltou a aparecer do fundo do Açude de Cocorobó, as ruínas da antiga cidade de Canudos, destruída por este grande massacre. Um evento que merece ser registrado, devido à sua importância e pela raridade do acontecimento. A última vez que parte das ruínas foram registradas, foi pelo conhecido Evandro Teixeira (75 anos), que trabalhou como fotógrafo do Jornal do Brasil. Evandro Teixeira publicou um livro fotográfico das ruínas da Velha Canudos, obtendo reconhecimento nacional e internacional pelo excelente trabalho.

Assim, o Clube de Fotografia de Feira de Santana, estará na região de 25 a 28 de abril, com o objetivo de realizar um documentário fotográfico, entrevista com moradores e vídeos documentários, visando a produção posterior de uma exposição fotográfica intinerante, bem como a publicação de um livro, mostrando toda a história e situação da região e dos seus habitantes. Os fotógrafos associados que participarão do projeto “Canudos, essa história não pode morrer!”, acreditam nesta excelente oportunidade para a realização do mesmo, que visa documentar, divulgar e resgatar parte da nossa história, seguindo a indignação de Euclides da Cunha, que em 1901 afirmou: “Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo”.

Clube de Fotografia de Feira de Santana

Membro da Rede de Produtores Culturais da Fotografia no Brasil

www.clubedefotografia.com

 

 

O Cruz Vermelha. O primeiro clube carnavalesco da Bahia

 

Carro alegórico - Blog Memoria da Bahia

O Clube Cruz Vermelha nasceu antes do Carnaval, 1883, para estrear na primeira festa oficial de Momo, ou seja, no ano seguinte e essa coincidência me faz pensar, sei que é uma ilação, que tenha sido o Clube quem articulou com os orgãos oficiais para a realização do primeiro Carnaval de Salvador. Tinha sentido criar uma agremiação carnavalesca apenas para participar do entrudo?

O Cruz Vermelha nasceu há 130 anos por iniciativa do comerciante José Oliveira Castro e estreou no primeiro carnaval baiano com uma proposta temática, alusiva às loterias, na verdade uma crítica; naquele tempo a imprensa denunciava a caixa preta das extrações e não se sabia se de fato entregavam o prêmio prometido.

O clube reunia comerciantes, brasileiros e portugueses, e tinha sede social na Barroquinha, então um ativo centro comercial, onde despontavam lojas de sapatos, tecidos e adereços. Estabelecimentos que importavam, da Alemanha e Itália, rolos de tecidos e lantejoulas, matéria prima para confeccionar as magníficas fantasias que caracterizaram o Cruz Vermelha ao longo de sua existência.

No Carnaval de 1885 desfila pela primeira vez aquele que seria o grande rival do Cruz Vermelha, o Clube Carnavalesco Fantoches de Euterpe, com carro alegórico romano e préstito inspirado na entrada triunfal de César em Roma. Rivalidade de várias décadas que atingiria o clímax nos anos 30 quando o Cruz Vermelha já tinha sede na Piedade e o povo aglomerava-se na Rua Chile para gritar “Viva Cruz!, Viva Fantoches!, saudando as suntuosas carruagens, e os enredos mitológicos, a bordo lindas senhoritas e garbosos rapazes da sociedade baiana como protagonistas.

Durante a II Guerra mundial o Clube sacrificou a marca consolidada no imaginário dos baianos e mudou o nome para Cruzeiro da Vitória para não ser confundido com a organização assistencialista; ao que parece não foi uma decisão acertada. Então, a sede do Cruz Vermelha já era no Campo Grande, no prédio onde hoje funciona a Fundação João Fernandes da Cunha, de onde saia o cortejo com a famosa guarda de honra composta por belas baianas.

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A rivalidade entre os dois clubes de elite do Carnaval baiano crescia com a adesão e provocação da imprensa, brigas entre as torcidas ocorreram em algumas ocasiões – 1959 com grande pancadaria – mas tudo era esquecido no ano seguinte. Naquele momento o Clube Inocentes do Progresso era mais um a disputar a preferência do público. Nessa década de 50 o Cruz Vermelha se renova graças ao empenho de João Pereira de Souza que investe suas energias para devolver ao clube o antigo esplendor.

O Cruz Vermelha conquistou 72 títulos e desfilou pela última vez, Tudo indica que em 1963, com o tema de Helena de Tróia e a guarda troiana revivendo a mística dos carnavais de início do século. Não era o mesmo clube, perdera espaço para os trios elétricos que já despontavam como tendência. E o glamour, o luxo representado pelo estandarte símbolo bordado em ouro com pedras preciosas ao redor do veludo, não mais tinha sentido entre os baianos.

Era o fim de uma era. O guia turístico da cidade; “Beabá da Bahia” de 1951, já previra esse final melancólico: “Os carros alegóricos do Fantoches, Cruzeiro da Vitória e Inocentes em Progresso, por mais dispendiosos que sejam sente-se que seu tempo já passou”. Era verdade. As trombetas dos figurinos de outrora abriam alas para a guitarra baiana com as suas cornetas amplificadoras.

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Fonte: Memorias da Bahia

 

 

Exposição de presépios no museu Casa do Sertão

O Museu Casa do Sertão, localizado no campus da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), realiza, durante o mês de dezembro, exposição de presépios composta por 99 esculturas do acervo próprio. Feitas em madeira, papel machê ou barro (mono e policromado), as peças retratam a sensibilidade de artesãos como o santeiro Domingos Paixão, Dona. Fia, Crispina dos Santos e Marilene Brito, e ilustram um dos mais populares temas da liturgia católica, o Natal.

O público pode visitar a exposição das 8 às 11h30 e das 14 às 17h30. Visitas em grupo podem ser agendadas através do telefone (71) 3161-8099 ou ainda pelo e-mail
museucasadosertao@gmail.com.

Representações iconográficas do nascimento do Menino Jesus montados nas salas de visitas dos lares e/ou igrejas ainda hoje são elementos recorrentes do cenário sertanejo durante o período natalino. Diante dos presépios, as famílias e membros das comunidades, especialmente as rurais, expressam a devoção através de cantigas e rezas, associando sagrado e profano como nas Folias de Reis.

Identidade regional

Por todo o Nordeste é celebrado o nascimento do menino salvador, “reinventando o saber de velhas tradições, de forma viva e criativa, acompanhando a dinâmica da vida dos participantes, que reforçam nessas práticas sua identidade social”, conforme
salienta a diretora do Museu Casa do Sertão, Cristiana Barbosa.

Montados em muitos lugares, é notadamente no sertão baiano que os presépios ganham aspectos do cotidiano regional, com a incorporação de cenas locais e vegetação da caatinga, além de materiais como areia, búzios, pedras e brinquedos. Em algumas localidades é comum grupos de Folia de Reis que se apresentam desde as comemorações do advento até o dia 6 de janeiro, dia em que se comemora a adoração dos Reis Magos e realiza-se, após o desmonte do presépio, a queima da lapinha.

O culto ao Menino Jesus foi iniciado por São Francisco de Assis que montou o primeiro presépio em 1223. Essa tradição foi se desenvolvendo ao longo do tempo e se espalhou por todo o mundo cristão. Em decorrência da montagem de presépios em templos, praças e residências, iniciou-se ainda no século 16 a dramatização com canto e dança, a maioria composta por autores populares e anônimos, como a louvação ao
nascimento de Jesus.

Ascom/Uefs