Parabéns Salvador!

  

 

Aniversário de Salvador – Bahia

Quatrocentos e sessenta e dois anos

São Salvador da Bahia de Todos os Santos – também conhecida como Bahia, foi a primeira cidade fundada no Brasil (1549), e a primeira capital do país, na época da colonização portuguesa. O nome da cidade tem sua origem na denominação dada pelo navegador italiano Américo Vespúcio à Baía onde ele aportou no dia 1 de novembro de 1503, dia em que se comemora Todos os Santos no calendário Católico. A Capitania Geral da Bahia de Todos os Santos foi a sede do governo colonial português. Por volta de 1824, quando foi promulgada a primeira Constituição brasileira, a antiga capitania foi designada como Província da Bahia, e, finalmente, após a Proclamação da República em 1889, ela tornou-se Estado Federal dos Estados Unidos do Brasil. No entanto, até o final do século XIX, a capital recebeu, simultaneamente, sete denominações diferentes: São Salvador, Salvador, Salvador da Bahia, Bahia, Bahia de Todos os Santos, e São Salvador da Bahia de Todos os Santos. Atualmente, Bahia designa o Estado e Salvador a sua capital, embora as pessoas oriundas de outras regiões, como também um grande número de baianos, a nomeiam carinhosamente de « Cidade da Bahia », hábito que também é comum entre um grande número de escritores e compositores populares.

A cidade do Salvador da Bahia foi fundada por Tomé de Souza na entrada da Bahia de Todos os Santos, quarenta e nove anos após a chegada dos Portugueses à costa brasileira, para ser a sede do Governo Geral. A cidade construída na Capitania Geral da Bahia de Todos os Santos, nasceu para garantir a posse territorial do país aos Portugueses e para assegura a fixação de um pólo administrativo na Colônia.

Enquanto primeira capital do Brasil, Salvador acumulava a dupla condição de centro administrativo e de entreposto comercial. A cidade era ponto de parada obrigatório para viajantes e comerciantes do mundo inteiro, como também importante porto de desembarque e de comércio, sobretudo de escravos africanos.

Com a transferência da capital para o  Rio de Janeiro (1763), mais próximo das minas de ouro de Minas Gerais, a antiga capital perdeu a sua importância política e permaneceu, segundo o historiador baiano Cid Teixeira, como uma espécie de ilha cultural, guardando assim os símbolos singulares da sua cultura.

Mas, para resumir, quem melhor define a Bahia é Caribé – Hector Júlio Páride Bernabó – nascido no subúrbio de Lánus, em Buenos Aires em 1911, de pai italiano e mãe brasileira. Veio à Bahia pela primeira vez em 1938, após a leitura do livro Jubiabá, de Jorge Amado, estabelecendo-se definitivamente à partir de 1942. Caribé faleceu em 1° de outubro de 1997 aos 86 anos de idade. Durante a sua vida foi jornalista, ilustrador, desenhista, pintor e escultor, deixando uma série de trabalhos que retratam os aspectos culturais populares da Bahia.

« A Bahia não é uma cidade de contrastes. Não é não. Quem pensa assim está enganado… Tudo aqui se interpenetra, se funde, se disfarça e volta à tona sob os aspectos mais diversos, sendo duas ou mais coisas ao mesmo tempo, tendo outro significado, outra roupa, até outra cara… Tudo misturado : gente, coisas, costumes, pensares. Vindos de longe ou sendo daqui, tudo misturado… Além da terra onde um dia descansaremos, há duas coisas : o preto e o branco. Havia. A loura de biquíni tem uma estrutura de ombros formidável, genuinamente sudanesa. A vendedora de mingau, escura como a noite, tem um holandês nos olhos. Tudo misturado… »

         In, CARIBÉ – As sete portas da Bahia. Livraria Martins Editora, São Paulo, 1962, p. 23.

Gilberto Freyre: um poema em homenagem à Bahia

 

Apresentação de Edson Nery da Fonseca.

Embora tenha concluído o curso de mestrado em ciências sociais na Universidade Columbia — onde foi aluno de Franz Boas, fundador da antropologia cultural — Gilberto Freyre considerava-se, acima de tudo, escritor. E foi como ensaísta que ele projetou-se no cenário nacional: ensaísta à la Montaigne e Bacon.

Mas em 1925 — muito antes, portanto, de distinguir-se com livros como Casa Grande & Senzala (1933) e Sobrados e Mucambos (1936) — Gilberto Freyre escreveu um longo poema inspirado por sua primeira visita à Cidade de Salvador: Bahia de todos os santos e de quase todos os pecados. Impresso no mesmo ano em reduzidíssima edição da recifense Revista do Norte, o poema deixou Manuel Bandeira entusiasmado. Tanto que em carta de 4 de junho de 1927 escreveu: “Teu poema, Gilberto, será a minha eterna dor de corno. Não posso me conformar com aquela galinhagem tão dozada, tão senvergonhamente lírica, trescalando a baunilha de mulata asseada. S!” (cf. Manuel Bandeira, Poesia e Prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1958, v. II: Prosa, p. 1398).

O poema tem três versões: a primeira foi reproduzida por Manuel Bandeira em sua Antologia dos Poetas Brasileiros Bissextos Contemporâneos (1946); a segunda, modificada pelo autor, foi publicada na revista carioca O Cruzeiro de 20 de janeiro de 1942; e a terceira aparece nos livros Talvez Poesia (José Olympio, 1962) e Poesia Reunida (Edições Pirata, 1980).

Fonte: Antonio Miranda  

BAHIA DE TODOS OS SANTOS E DE QUASE TODOS OS PECADOS

Bahia de Todos os Santos (e de quase todos os pecados)

casas trepadas umas por cima das outras

casas, sobrados, igrejas, como gente se espremendo pra sair num

retrato de revista ou jornal

(vaidade das vaidades! diz o Eclesiastes)

igrejas gordas (as de Pernambuco são mais magras

toda a Bahia é uma maternal cidade gorda

como se dos ventres empinados dos seus montes

dos quais saíram tantas cidades do Brasil

inda outras estivessem para sair

ar mole oleoso

cheiro de comida

cheiro de incenso

cheiro de mulata

bafos quentes de sacristias e cozinhas

panelas fervendo

temperos ardendo

o Santíssimo Sacramento se elevando

mulheres parindo

cheiro de alfazema

remédios contra sífilis

letreiros como este:

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo

(Para sempre! Amém!)

automóveis a 30$ a hora

e um ford todo osso sobe qualquer ladeira

saltando pulando tilintando

para depois escorrer sobre o asfalto novo

que branqueja como dentadura postiça em terra encarnada

(a terra encarnada de 1500)

gente da Bahia! preta, parda, roxa, morena

cor dos bons jacarandás de engenho do Brasil

(madeira que cupim não rói)

sem rostos cor de fiambre

nem corpos cor de peru frio

Bahia de cores quentes, carnes morenas, gostos picantes

eu detesto teus oradores, teus otaviosmangabeiras

mas gosto das tuas iaiás, tuas mulatas, teus angus

tabuleiros, flor de papel, candeeirinhos,

tudo à sombra das tuas igrejas

todas cheias de anjinhos bochechudos

sãojoões sãojosés meninozinhosdeus

e com senhoras gordas se confessando a frades mais magros do que

eu

O padre reprimido que há em mim

se exalta diante de ti Bahia

e perdoa tuas superstições

teu comércio de medidas de Nossa Senhora e do Nossossenhores do

Bonfim

e vê no ventre dos teus montes e das tuas mulheres

conservadoras da fé uma vez entregue aos santos

multiplicadores de cidades cristãs e de criaturas de Deus

Bahia de Todos os Santos

Salvador

São Salvador

Bahia

Negras velhas da Bahia

vendendo mingau angu acarajé

Negras velhas de xale encarnado

peitos caídos

mães de mulatas mais belas dos Brasis

mulatas de gordo peito em bico como para dar de mamar a todos os

meninos do Brasil.

Mulatas de mãos quase de anjos

mãos agradando ioiôs

criando grandes sinhôs quase iguais aos do Império

penteando iaiás

dando cafuné nas sinhás

enfeitando tabuleiros cabelos santos anjos

lavando o chão de Nosso Senhor do Bonfim

pés dançando nus nas chinelas sem meia

cabeções enfeitados de rendas

estrelas marinhas de prata

tetéias de ouro

balangandãs

presentes de português

óleo de coco

azeite-de-dendê

Bahia

Salvador

São Salvador

Todos os Santos

Tomé de Sousa

Tomés de Sousa

padres, negros, caboclos

Mulatas quadrarunas octorunas

a Primeira Missa

os malês

índias nuas

vergonhas raspadas

candomblés santidades heresias sodomias

quase todos os pecados

ranger de camas-de-vento

corpos ardendo suando de gozo

Todos os Santos

missa das seis

comunhão

gênios de Sergipe

bacharéis de pince-nez

literatos que lêem Menotti del Picchi e Mário Pinto Serpa

mulatos de fala fina

muleques

capoeiras feiticeiras

chapéus-do-chile

Rua Chile

viva J. J. Seabra morra J. J. Seabra

Bahia

Salvador

São Salvador

Todos os Santos

um dia  voltarei com vagar ao teu seio moreno brasileiro

às tuas igrejas onde pregou Vieira moreno hoje cheias de frades

ruivos e bons

aos teus tabuleiros escancarados em x (esse x é o futuro do Brasil)

a tuas a teus sobrados cheirando a incenso comida alfazema

cacau.

Extraído de: FREYRE, Gilberto. Bahia e baianos. Apresentação de Edson Nery da Fonseca. Salvador: Fundação das Artes, 1990. 167 p.

DOMINGO TEM TEATRO NO CUCA

 

Para alegria da garotada o Domingo Tem Teatro abre a temporada de 2011 nesse domingo, 27 de março, dia internacional do teatro e do circo, às 10h30,  no teatro do Cuca. Num clima de muita descontração e alegria a Cia Cuca de Teatro se prepara para que o dia mais esperado da semana tenha casa lotada para comemorar dois momentos muito especiais, o dia do teatro e do circo e a volta do Domingo Tem Teatro.

E quem vai abrir a temporada é o premiadíssimo espetáculo “Maria Minhoca”, vencedor do Prêmio Funarte em  2004 – Melhor espetáculo infantil da Bahia. Depois de circular pelo Nordeste e Sudeste do país, Maria Minhoca se prepara para receber a mais variada plateia, pois o espetáculo além de atender o público mirim, também pode ser apreciado pelos adultos, que poderão se divertir com as aventuras e peripécias de Maria Minhoca e Chiquinho Colibri, que tenta a duras penas conquistar pai e filha ao mesmo tempo.

O Clássico infantil da literatura teatral brasileira, com texto de Maria Clara Machado, ganhou nova roupagem na ótica dos palhaços.  O apaixonado Chiquinho Colibri não consegue chegar nem perto da sua amada Maria Minhoca porque seu pai, o lorde inglês Mister João Buldog da Silva, já planejou um outro destino para a filha: casá-la com o vaidoso e ambicioso Capitão Quartel.

Vale à pena conferir e chegar mais cedo ao teatro do Cuca, pois o espetáculo começa as 10h30, mas o espaço de diversão e lazer fica aberto a partir das 9 horas,  oferecendo área de lazer com praça de alimentação, brinquedos e uma calorosa recepção dos Mascotes da Cia Cuca de Teatro.

 

DOMINGO TEM TEATRO

Espetáculo: Maria Minhoca

Direção: Geovane Mascarenhas e João Lima

Elenco: Jailton Nascimento (Chiquinho Colibri), Geovane Mascarenhas (Pedro Fonfon), Jacy Queiroz (Capitão Quartel), Elizete Destéffani (Maria Minhoca)  e Neide Kocca (Mister Buldog).

Músico: Itamar Vieira – Matraca

Quando: Dia 27 de março

Local: Teatro do Cuca – Endereço: Rua Conselheiro Franco, 66 – Centro

Horário: Sessão única matinal, às 10h30min

Ingressos: R$ 8 (preço promocional para adultos e crianças) 

Direção de Produção: Henrique Motté

Realização: Cia Cuca de Teatro – Informações e reservas: (75) 3491-8992

Assessoria Cuca/Uefs

 

14 de março – Dia Nacional da Poesia

 

 

A palavra poesia tem origem grega – poíesis – e significa ação de fazer algo, criação. A poesia é definida como a arte de escrever em versos, aquilo que desperta o sentimento do belo, com o poder de modificar ou imitar a realidade, segundo a percepção do artista. No passado os poemas eram cantados, acompanhados pela lira, um instrumento musical muito comum na Grécia antiga. Por isso, diz-se que a poesia pertence ao gênero lírico. Hoje podemos falar de poemas épicos, dramáticos e líricos.

As linhas de um poema são os versos. Ao conjunto de versos dá-se o nome de estrofe. Os versos podem rimar – ou não – entre si e obedecer a determinada métrica, que é a contagem das sílabas poéticas.

Os versos mais tradicionais são as redondilhas; a redondilha menor tem cinco sílabas, e a maior, sete; os versos decassílabos têm dez sílabas; os alexandrinos, doze.

A rima é um recurso utilizado para dar musicalidade aos versos, baseando-se na semelhança sonora das palavras do final ou, às vezes, do interior dos versos.

Rima, ritmo e métrica são características especiais de um poema e que podem variar, dependendo do movimento literário da época. A partir do Modernismo (1922) os versos livres são os mais utilizados.

 

O Dia Nacional da Poesia é comemorado no dia 14 de março em homenagem ao nascimento do poeta baiano Antônio Frederico de Castro Alves. Poeta do Romantismo, ele foi um dos maiores nomes da poesia brasileira.

Antônio Frederico de Castro Alves nasceu a 14 de março de 1847 na Fazenda Cabaceiras, comarca de Muritiba, a 42 Km da vila de Nossa Senhora da Conceição de “Curralinho”, hoje Castro Alves, na Bahia, e faleceu a 6 de julho de 1871, na cidade do Salvador, com apenas 24 anos de idade.

Em 1862 ingressou na Faculdade de Direito de Recife. Datam dessa época os seus amores pela atriz portuguesa Eugênia Câmara e a composição dos primeiros poemas abolicionistas. Em 1867 deixa Recife, indo para a Bahia onde faz representar seu drama Gonzaga. Segue depois para o Rio de Janeiro, recebendo incentivos dos escritores José de Alencar, Francisco Otaviano e Machado de Assis.

A 11 de novembro de 1868, em uma caçada nos arredores de São Paulo, feriu o calcanhar esquerdo com um tiro de espingarda, resultando-lhe a amputação do mesmo. Sobreveio, em seguida, a tuberculose, que lhe obriga a retornar à sua terra natal, onde veio a falecer.

Castro Alves pertenceu à Terceira Geração da Poesia Romântica (Social ou Condoreira), caracterizada pelos ideais abolicionistas e republicanos, sendo considerado a maior expressão da época

Suas obras mais destacadas  são: Espumas Flutuantes, Gonzaga ou A Revolução de Minas, A Cachoeira de Paulo Afonso,Vozes D’África, O Navio Negreiro, entre outras. Suas poesias são marcadas pela crítica à escravidão, motivo pelo qual é conhecido como “Poeta dos Escravos.

 

Poemas de Castros Alves

                                                      Vozes d’África
 
 

                                     Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?  
                                     Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes  
                                     Embuçado nos céus? 
                                     Há dois mil anos te mandei meu grito,  
                                     Que embalde desde então corre o infinito… 
                                               Onde estás, Senhor Deus?…
 

                                     Qual Prometeu tu me amarraste um dia  
                                     Do deserto na rubra penedia 
                                             — Infinito: galé! … 
                                     Por abutre — me deste o sol candente,  
                                     E a terra de Suez — foi a corrente  
                                                 Que me ligaste ao pé…
 

                                     O cavalo estafado do Beduíno  
                                     Sob a vergasta tomba ressupino  
                                     E morre no areal. 
                                     Minha garupa sangra, a dor poreja,  
                                     Quando o chicote do simoun dardeja  
                                                O teu braço eternal.
 

                                     Minhas irmãs são belas, são ditosas…  
                                     Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas  
                                     Dos haréns do Sultão. 
                                     Ou no dorso dos brancos elefantes  
                                     Embala-se coberta de brilhantes  
                                     Nas plagas do Hindustão.
 

                                     Por tenda tem os cimos do Himalaia…  
                                     Ganges amoroso beija a praia  
                                     Coberta de corais … 
                                     A brisa de Misora o céu inflama; 
                                     E ela dorme nos templos do Deus Brama, 
                                                  — Pagodes colossais…
 

                                     A Europa é sempre Europa, a gloriosa! … 
                                     A mulher deslumbrante e caprichosa, 
                                     Rainha e cortesã. 
                                     Artista — corta o mármor de Carrara;  
                                     Poetisa — tange os hinos de Ferrara, 
                                     No glorioso afã! …
 

                                     Sempre a láurea lhe cabe no litígio… 
                                     Ora uma c’roa, ora o barrete frígio  
                                     Enflora-lhe a cerviz. 
                                     Universo após ela — doudo amante  
                                     Segue cativo o passo delirante  
                                     Da grande meretriz.
 

                                                ………………………………
 

                                     Mas eu, Senhor!… Eu triste abandonada  
                                     Em meio das areias esgarrada, 
                                     Perdida marcho em vão! 
                                     Se choro… bebe o pranto a areia ardente;  
                                     talvez… p’ra que meu pranto, ó Deus clemente! 
                                     Não descubras no chão…
 

                                     E nem tenho uma sombra de floresta…  
                                     Para cobrir-me nem um templo resta  
                                     No solo abrasador… 
                                     Quando subo às Pirâmides do Egito  
                                     Embalde aos quatro céus chorando grito: 
                                     “Abriga-me, Senhor!…”
 

                                     Como o profeta em cinza a fronte envolve,  
                                     Velo a cabeça no areal que volve  
                                     O siroco feroz… 
                                     Quando eu passo no Saara amortalhada…  
                                     Ai! dizem: “Lá vai África embuçada  
                                     No seu branco albornoz. . . “
 

                                     Nem vêem que o deserto é meu sudário,  
                                     Que o silêncio campeia solitário  
                                     Por sobre o peito meu. 
                                     Lá no solo onde o cardo apenas medra  
                                     Boceja a Esfinge colossal de pedra  
                                     Fitando o morno céu.  

                                                …………………………………
 

                                     Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!  
                                     É, pois, teu peito eterno, inexaurível 
                                     De vingança e rancor?…  
                                     E que é que fiz, Senhor? que torvo crime  
                                     Eu cometi jamais que assim me oprime  
                                     Teu gládio vingador?!
 

                                                ………………………………….
                                               
 

                                     Vi a ciência desertar do Egito…  
                                     Vi meu povo seguir — Judeu maldito — 
                                     Trilho de perdição. 
                                     Depois vi minha prole desgraçada  
                                     Pelas garras d’Europa — arrebatada — 
                                     Amestrado falcão! …
 

                                     Cristo! embalde morreste sobre um monte  
                                     Teu sangue não lavou de minha fronte  
                                     A mancha original. 
                                     Ainda hoje são, por fado adverso,  
                                     Meus filhos — alimária do universo, 
                                     Eu — pasto universal…
 

                                     Hoje em meu sangue a América se nutre  
                                     Condor que transformara-se em abutre, 
                                     Ave da escravidão, 
                                     Ela juntou-se às mais… irmã traidora  
                                     Qual de José os vis irmãos outrora  
                                     Venderam seu irmão.
 

                                     Basta, Senhor!  De teu potente braço  
                                     Role através dos astros e do espaço  
                                     Perdão p’ra os crimes meus!  
                                     Há dois mil anos eu soluço um grito… 
                                     escuta o brado meu lá no infinito, 
                                                 Meu Deus!  Senhor, meu Deus!!… 
  
                                                            São Paulo, 11 de junho de 1868

                        Adormecida

Uma noite, eu me lembro… Ela dormia
Numa rede encostada molemente…
Quase aberto o roupão… solto o cabelo
E o pé descalço do tapete rente.

‘Stava aberta a janela. Um cheiro agreste
Exalavam as silvas da campina…
E ao longe, num pedaço do horizonte,
Via-se a noite plácida e divina.

De um jasmineiro os galhos encurvados,
Indiscretos entravam pela sala,
E de leve oscilando ao tom das auras,
Iam na face trêmulos — beijá-la.

Era um quadro celeste!… A cada afago
Mesmo em sonhos a moça estremecia…
Quando ela serenava… a flor beijava-a…
Quando ela ia beijar-lhe… a flor fugia…

Dir-se-ia que naquele doce instante
Brincavam duas cândidas crianças…
A brisa, que agitava as folhas verdes,
Fazia-lhe ondear as negras tranças!

E o ramo ora chegava ora afastava-se…
Mas quando a via despertada a meio,
Pra não zangá-la… sacudia alegre
Uma chuva de pétalas no seio…

Eu, fitando esta cena, repetia
Naquela noite lânguida e sentida:
“Ó flor! – tu és a virgem das campinas!
“Virgem! – tu és a flor de minha vida!…”

Dia Internacional da Mulher

 

  

Sempre que falo ou escrevo sobre o “dia internacional da mulher”, fico um pouco constrangida; primeiro porque sou contra dias especiais, pois essas datas sempre terminam deturpadas pelo apetite comercial. Segundo, porque as homenagens sempre transfiguram  a imagem da mulher.

 Acredito que os festejos  e homenagens são importantes, sobretudo para que se possa entender o que e o porquê de comemorar a data. Mulheres são seres humanos, pessoas capazes e versáteis. Às vezes são frágeis e medrosas; às vezes se auto-censuram; outras vezes são destemidas e corajosas.

 

Penso nisso porque fico indignada com a discriminação, até mesmo quando exaltam uma mulher que assume um posto importante, como se ela estivesse realizando uma façanha, como se não fosse capaz de chegar até ali, como se fosse um privilégio, um golpe de sorte e não um direito, uma conquista. Existem mulheres que sabem cozinhar; outras que detestam cozinha. Algumas que adoram decorar a casa, outras que não têm o menor jeito. Há mulheres motoristas de caminhão, pilotos de avião, taxistas, garis, pescadoras, faxineiras, professoras, cantoras, atrizes e políticas, no Brasil e em outros países do mundo. Mas também há mulheres que apanham de homens, que são discriminadas no trabalho; mulheres que vivem na rua, mulheres mal-remuneradas, mulheres exploradas, enfim, mulheres maltratadas.

Falam das conquistas de igualdade de direitos entre homens e mulheres, mas isso também pode ser perigoso porque é uma forma de preconceito. O mundo evoluiu. A mulher conquistou seu espaço, apesar da maternidade e das tarefas domésticas  que executa no seu cotidiano; mas ela aprendeu a batalhar, a buscar o que lhe interessa. Essa “igualdade” tão comentada e tida como reconhecida, muitas vezes é discutida e tripudiada, porque na prática as discriminações persistem e são gritantes.

Acredito que esse dia internacional da mulher não deva ser somente um dia de celebração, um dia de festa, mas sobretudo, um dia de reflexão sobre o  papel da mulher  na sociedade atual. Que a comemoração não se restrinja ao almoço ou jantar no restaurante, ao frasco de perfume importado, ao buquê de flores (bem-vindos hoje e em qualquer dia do ano), ao cartão de felicitações ou àquelas exaltações caricaturais tão bem utilizadas pela mídia.

Seria melhor que nos vissem simplesmente Mulheres, assim mesmo, com letra maiúscula. Mulheres conscientes e que se orgulham da sua condição, em casa, no trabalho, na rua, na escola, em todo lugar; mães, filhas, esposas, noivas, mulheres trabalhadoras urbanas ou rurais; motoristas, médicas, cabeleireiras, advogadas, maquinistas, esteticistas, cozinheiras, jornalistas, bancárias, domésticas, donas de casa, floristas, dentistas, manicures, comerciárias, artesãs, enfermeiras, costureiras, empresárias, manequins, mães de santo, baianas do acarajé, bailarinas, faxineiras, santas, loucas, enfim, MULHERES!

 

E nunca é demais lembrar Adélia Prado, uma poeta que admiro – e que não precisa ser chamada de poetisa para que acreditem nisso – porque ela soube resumir em poucas palavras o que a maioria das mulheres sente e pensa. Em seu poema, Com licença poética, ela contesta Drummond replicando o “anjo torto” dos versos do Poema de sete faces, que decretou: “Vai, Carlos! ser gauche na vida”.

O anjo de Adélia é esbelto, toca trombeta e anuncia: “Vai carregar bandeira”. Mas a poeta sentencia: “Cargo muito pesado pra mulher”. Com jeito suave, mas corajoso, os versos de Adélia revelam, além da fragilidade da alma feminina, a força e a determinação da mulher que sabe o que quer:

 “Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou. »

                              (Adélia Prado)

 Observação: As flores são para todas aquelas que pensam mais ou menos assim.