Existirmos, a que será que se destina?

 

Caetano Veloso fala de Cajuína                

 Jorge Bastos Moreno

“Numa excursão pelo Brasil com o show Muito, creio, no final dos anos 70, recebi, no hotel em Teresina, a visita de Dr. Eli, o pai de Torquato. Eu já o conhecia pois ele tinha vindo ao Rio umas duas vezes. Mas era a primeira vez que eu o via depois do suicídio de Torquato. Torquato estava, de certa forma , afastado das pessoas todas. Mas eu não o via desde minha chegada de Londres: Dedé e eu morávamos na Bahia e ele, no Rio (com temporadas em Teresina, onde descansava das internações a que se submeteu por instabilidade mental agravada, ao que se diz, pelo álcool). Eu não o vira em Londres: ele estivera na Europa mas voltara ao Brasil justo antes de minha chegada a Londres. Assim, estávamos de fato bastante afastados, embora sem ressentimentos ou hostilidades. Eu queria muito bem a ele. Discordava da atitude agressiva que ele adotou contra o Cinema Novo na coluna que escrevia, mas nunca cheguei sequer a dizer-lhe isso. No dia em que ele se matou, eu estava recebendo Chico Buarque em Salvador para fazermos aquele show que virou disco famoso. Torquato tinha se  aproximado muito de Chico, logo antes do tropicalismo: entre 1966 e 1967. A ponto de estar mais freqüentemente com Chico do que comigo. Chico e eu recebemos a notícia quando íamos sair para o Teatro Castro Alves. Ficamos abalados e falamos sobre isso. E sobre Torquato ter estado longe e mal. Mas eu não chorei. Senti uma dureza de ânimo dentro de mim. Me senti um tanto amargo e triste mas pouco sentimental.
Qaundo, anos depois, encontrei Dr. Eli, que sempre foi uma pessoa adorável, parecidíssimo com Torquato, e a quem Torquato amava com grande ternura, essa dureza amarga se desfez. E eu chorei durante horas, sem parar. Dr. Eli me consolava, carinhosamente. Levou-me à sua casa. D. Salomé, a mãe de Torquato, estava hospitalizada. Então ficamos só ele e eu na casa. Ele não dizia quase nada. Tirou uma rosa-menina do jardim e me deu. Me mostrou as muitas fotografias de Torquato distribuídas pelas paredes da casa. Serviu cajuína para nós dois. E bebemos lentamente. Durante todo o tempo eu chorava. Diferentemente do dia da morte de Torquato, eu não estava triste nem amargo. Era um sentimento terno e bom, amoroso, dirigido a Dr. Eli e a Torquato, à vida. Mas era intenso demais e eu chorei. No dia seguinte, já na próxima cidade da excursão, escrevi Cajuína”.
 
Sobre Torquato Neto leia mais aqui  

    

                        Cajuína

                            Caetano Veloso

        Existirmos a que será que se destina
        Pois quando tu me deste a rosa pequenina 
        Vi que és um homem lindo
        e que se acaso a sina
        Do menino infeliz
        não se nos ilumina
        Tampouco turva-se a lágrima nordestina
        Apenas a matéria vida era tão fina
        E éramos olharmo-nos intacta retina
        A cajuína cristalina em Teresina

Fonte: OGlobo – 06/06/2006

 

Galeano expõe pinturas no Museu de Arte Contemporânea

Após um longo período sem expor em Feira de Santana, o artista visual Jorge Galeano volta a mostrar suas obras mais recentes.  O vernissage acontece no dia 18 deste mês, às 20h, no Museu de Arte Contemporânea Raimundo de Oliveira.

Galeano apresenta cerca de 20 trabalhos, acrílico sobre tela, fechando uma série de exposições no Museu de Arte Contemporânea. Ele está voltando de uma recente tournée de exposição na Argentina, onde apresentou “Cun La luz del sertão”, com curadoria da artista Nora Dobarro.

 A mostra, uma realização da Fundación Centro de Estudos Brasileiros, aconteceu no período de 7 a 29 de outubro, com o apoio da Embajada  del Brasil, Secretaria de Cultura da presidência de La Nación , Gobierno de La Ciudad  e galeria de Arte Ruth Benzacar.

 Sobre Galeano, que é argentino, mas radicado em Feira de Santana, Nora afirma  que “o artista produz o entrelaçado de cores e as formas em uma ação de combate visual intenso apropriando-se ainda das ruas que transita diariamente e seus rituais”.

5 de Novembro – Dia da Cultura

 

Hoje, 5 de novembro, comemora-se no Brasil o Dia da Cultura. A data foi escolhida por marcar o nascimento de Ruy Barbosa. Muito justo. Nada contra Ruy Barbosa, nem poderia ter…

Dele, para ser franca, conheço um pouco da rica biografia, sei que ficou conhecido como Águia de Haia por nos representar com imenso brilho naquela Corte, que é o autor da Oração aos Moços, que cunhou uma frase sempre repetida e muito assustadora (RB) e que recebeu de Joaquim Nabuco um dos mais rasgados elogios de que se tem notícia: “Ruy Barbosa, hoje a mais poderosa máquina cerebral do nosso país”.

Vindo de quem veio, Nabuco, essas palavras são impressionantes e, para mim, já bastariam para justificar Ruy como patrono do Dia da Cultura.

Mas vou no popular, como dizem os cariocas com muito humor: já que temos um Dia da Cultura a comemorar, honro nesta data José Bento de Monteiro Lobato, criador de amigos de toda minha infância, juventude, maturidade e velhice. Já fui tratada pelo Dr. Caramujo, já piralampei muito com os meninos em suas viagens, já andei sentada no ombro de Heracles, já usei e abusei do Visconde, já sentei aos pés de Dona Benta, já escapei do Minotauro graças aos bolinhos da tia Nastácia e ainda abro muitas vezes a canastra onde guardo meus tesouros, inclusive a tesourinha de uma perna só.

Ser o país onde fica o Sítio do Picapau Amarelo é mais uma das magníficas dádivas de Deus para com o Brasil. Somos um país abençoado, terras férteis, matas riquíssimas, um litoral deslumbrante, montanhas, planícies e planaltos de extrema beleza. Mas entre essas dádivas, não se iludam, está sermos a terra natal de Monteiro Lobato, criador de criaturas que apaixonam as crianças.

O atual ministro da Cultura, Juca Ferreira, baiano como Ruy, fez publicar hoje uma bela carta sobre o Dia da Cultura no site de seu ministério: “É com enorme alegria que o Ministério da Cultura felicita hoje o Dia Nacional da Cultura. Celebração que neste momento especial não poderia ser mais simbólica em vista a importância que a pauta conquistou na agenda do país. É o momento de celebrarmos a riqueza da diversidade cultural, a plena liberdade de expressão e comemorar a força da arte brasileira”.

Quero, em primeiro lugar, cumprimentar o ministro por louvar e mencionar a “plena liberdade de expressão”, sem a qual não há Cultura que resista, e em segundo lugar, lhe dar os parabéns por ser tão sortudo: imaginem se hoje já estivesse em vigor a ignomínia que estava sendo tramada, proibir as Caçadas de Pedrinho de circular por nossas escolas!

Tenho certeza que essa ideia foi mais uma das que jorram da torneirinha de asneiras da Emília, que deve ter levado um bom sabão do Visconde e um pito muito merecido de Dona Benta. O que ela merece é que tia Nastácia nunca mais lhe remende os estragos…

E eu fecho por hoje minha torneirinha de asneiras, em homenagem ao Dia Nacional da Cultura e aos pacientes leitores que chegaram até aqui. Com um duplo abraço: por termos vencido mais uma campanha eleitoral – ufa! – e por olhar em volta e ver que ainda estamos no mesmo Brasil de sempre: lá vem por aí, bela e fagueira, mais uma das sempiternas promessas furadas que nos fazem, a CPMF. Fazer o que? Dar razão a Ruy Barbosa: o homem chega a desanimar da virtude…

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa

Fonte: Blog do Noblat