A blogueira e o cotidiano

Os amigos andam dizendo por aí (reclamando), que o blog está frio, que tenho me contentado em reproduzir informações sobre eventos e textos alheios. Concordo em parte (e não fico zangada), pois quando publico algo sempre o faço de acordo com o meu gosto pessoal e sempre obedecendo a certo contexto. Além disso, os autores que publico são maravilhosos e faço isso com muito gosto.
Acontece que vida de blogueiro é igual à de todo mundo, cheia de altos e baixos, com problemas, etc… Nos últimos tempos tive muitos, mas garanto que não vale a pena falar disso.
A autora deste blog também fica sem inspiração de vez em quando, e às vezes sente preguiça. Para evitar as queixas, aproveito para manter o blog atualizado e deixar registradas algumas informações sobre ela:
1- Tem obsessão por flores; naturais, perfumadas, sem perfume, grandes e pequenas, de todas as cores. Tem um jardim e cuida dele.
2- Acha o pôr-do-sol um dos espetáculos mais bonitos da natureza.
3- Ama o mar, principalmente o mar da Bahia: azul turquesa, ou verde esmeralda, dependendo da estação.
4- Sempre que algo bom acontece ela conta para todo mundo. Mas quando fica triste – ou decepcionada com alguém – entra na casca como um caracol, e sofre.
5- Valoriza a amizade. Tem poucos amigos e os ama muito. Gosta de visitá-los e de recebê-los em casa, ocasião em que prepara pratos especiais, que ao serem saboreados devem ser devidamente elogiados, senão perde a graça. Rsrsrs…
6- Adora conversar. Detesta convidados que vão embora logo depois de comer. Acredita piamente que eles têm obrigação de “pagar” a comida que comeram com, no mínimo, meia hora de conversa.
7- Aos nove anos escreveu um poema em homenagem à Madre superiora do colégio onde estudava. Na hora de declamá-lo – festa de aniversário da Madre – esqueceu tudo! Levou um beliscão da professora e uma reprimenda da mãe. A partir desse dia, tudo que escreveu guardou numa gaveta, em segredo.
8- Não tem paciência com pessoas egoístas, nem com “gênios”; ao invés destes, prefere as crianças.
9- Odeia mentiras, injustiça, traição e pessoas dissimuladas. Não aprecia doces, tortas, bolos e salgadinhos de festa.
10- Ama crianças, sinceridade, água de coco, a Bahia, cerveja Leffe, cocada, Paris, sorvete de mangaba, profiteroles, cachorros e chocolate meio-amargo.
É só isso!
A casa amanhecente

IMPRESSIONISTA
Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.
(Adélia Prado)
Artistas arquitetos expõem no Museu Regional de Arte da Uefs

Com a Curadoria da Prova do Artista Galeria de Arte, será realizada no dia 19 deste mês, no Museu Regional de Arte da Universidade Estadual de Feira de Santana, a exposição Artistas Arquitetos. O evento, coordenado pelo Cuca, tem vernissage agendado para as 19h.
Participam da mostra os artistas arquitetos da Bahia Juraci Dórea, Luiz Humberto de Carvalho, Jamison Pedra, Almandrade, Eneida Sanches, Chico Mazzoni, Aruane Garzedin, Igor Souza, Lourenço Muller, Arsênio Oliveira, Eliezer Nobre e Waldo Robato.
Juraci Dórea será destaque na exposição, como único artista feirense com sala especial na Bienal de São Paulo em 1988 e sala especial na bienal de Veneza, em 1998. Outro homenageado será Diógenes Rebouças, primeiro artista arquiteto da Bahia. “Ele foi responsável pela formação de muitos profissionais da área, quando arte e humanismo eram ingredientes da construção civil”, revela o artista plástico Almandrade, acrescentando que nessa exposição, Diógenes terá apresentação do professor e historiador Francisco Sena.
De acordo com Almandrade, que também é poeta e arquiteto, a curadoria da mostra adotou como critério a passagem do artista pela Escola de Arquitetura, arquitetos de formação que descobriram ou tornaram-se artistas plásticos por caminhos e interesses diversos, até contraditórios. Neste caso, pontua Almandrade, “é evidente a diversidade de linguagens e estilos que, por outro lado, refletem tendências articuladas com a pluralidade da arte contemporânea”.
Socorro Pitombo – Assessoria Cuca/Uefs
Uma crônica de Nélida Piñon

A MÁSCARA DO MEU ROSTO
Estou prestes a sair de casa. Abro o armário. Urge escolher a máscara, das muitas que eu tenho, para ir à rua. Com ela enfrentarei os dissabores e as aventuras do meu cotidiano. Afinal, ela é a ponte que cruzo para alcançar os demais seres.
Minhas máscaras acomodam-se na prateleira, em meio às bolsas. Todas parecidas, elas diferenciam-se entre si apenas em detalhes imperceptíveis aos olhos alheios. São raros aqueles que surpreendem a natureza da minha máscara. Reconhecem que rio, choro ou encontro-me na iminência de velejar para um hemisfério longínquo, de onde, quem sabe, não regresso tão cedo.
Enquanto muitos confessam, em consonância, com triste adágio, que suas vidas são um livro aberto, nada tenho a esconder dos homens, sou justo o contrário, não sei viver sem as máscaras, que me protegem, são a salvaguarda da minha liberdade. E ainda que se provem elas em muitos momentos incapazes de me proteger, não importa. Afinal, a vida não permite previsões, lances antecipados. Para enfrentar certos conflitos, seria necessário revestir-se da máscara de ferro, que traz consigo o sopro da morte.
Duvido que alguém prescinda do uso da máscara. Ande inadvertido pelo mundo, oferecendo o rosto cru dos seus sentimentos. Desajeitado e pobre, quando poderia dispor, a qualquer hora, de mais de mil máscaras, capazes todas de impulsionar o espetáculo humano, de corresponder à natureza do seu dono, de encharcar de vinagre e esperança qualquer coração.
As máscaras que levo pelas manhãs coladas à pele têm recursos múltiplos. Fogem ao meu controle. Fazem-se de gestos, do franzir da testa, das rugas em torno dos olhos, dos sulcos próximos à comissura dos lábios.
Integram um sistema que esconde e revela ao mesmo tempo quem sou. Desgovernada, inescrupulosa, cheia de razão e de fúria, padecendo, como os demais, da enfermidade dos sentimentos. E que embora esteja sob a guarda das máscaras, não está a salvo dos que nos observam com luneta. Donos de um olhar que semeia, a respeito de quem seja, uma versão contrária à que queríamos.
As máscaras, sem dúvida, ajudam-me a viver. Levam-me às cerimônias solenes, onde confirmo educação recebida. Acompanham-me nos momentos em que sangro, a despeito da minha aparente indiferença. E são elas ainda que me perguntam qual das máscaras usar em determinada festa. Acaso a máscara que engendrei ao longo dos anos, e que me serve como um chinelo velho? Aquela que é dissimulada, cujo desassombro assusta-me, pois revela aos vizinhos o que eu mantinha sob resguardo? Ou a outra, que aspira sobrepor-se à tirania das convenções, quer rasgar o véu da hipocrisia, emitir as palavras acomodadas no baú dos enigmas? Será a máscara que alardeia arrogância, ansiosa por deixar consignada nas paredes do mundo uma única mensagem que justifique sua existência?
Olho-me ao espelho. Estarei usando máscara mesmo quando estou sozinha? Acaso já não vivo sem ela, só respiro por meio de artifícios? É ela que me deixa ser alada e terrestre, me permite voar e contornar seres e objetos de cristal? É a máscara que pousa desajeitada no meu próprio rosto, onde há de ficar para sempre, até derreter um dia como se fora feita de cera?
Nélida Piñon – Crônica publicada em 29/09/1997, no jornal OESP, Suplemento Feminino.