Poemas de Antônio Brasileiro

 

ESTUDO 165

 

Compor um homem

com suas tramas, seus dramas,

teogonias, gramáticas, soluços;

compor um homem,

do orvalho matinal compor um homem,

do céu cheio de estrelas, do mistério

do homem

compor o homem; compor um homem

da criança que há no homem, do homem

a adivinhar-se em antiqüíssimas retinas;

compor um homem

com seus soluços, gramáticas, teogonias

– e recitá-lo perante os outros homens.

 

 

LOUCURA E POESIA

 

Furtava as cores de todas as paisagens

que colhia.

Um dia morreu

e um arco-íris bebia

seus olhos.

 

MELOPÉIA

   

Ai esta vontade imensa de calar!

 

De esparramar o pó dos pensamentos

tão longa e longamente arquivados;

 

de apagar os rastos e os projetos

e incendiar a estante de mil livros;

 

de consumar o amor num esquecimento

geral, completa e desprendidamente –

 

ai, semear beldroegas na avenida

e apascentar rebanhos de mamutes;

 

ai, gargalhar nas noites novilunas

como se louco ou iluminado;

 

adormecer serenamente: nu,

liberto, vasto, inverossímil.

 

Ah esta vontade imensa de falar!

                  (Antônio Brasileiro)

 

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As verdades de Martha Medeiros

 

Gente Fina

 

“Gente fina é que tinha que virar tendência. Porque, colocando na balança, é quem faz a diferença.”

Martha Medeiros

 

Gente fina é politicamente correta? Se for, não sou gente fina, porque fico muito impaciente com certas cortesias exageradas. Por exemplo, outro dia estava no aeroporto e uma  voz no alto-falante convidou a embarcar os passageiros da melhor idade. Se eu tivesse cem anos, entenderia que todos deveriam passar na minha frente. Que melhor idade? Claro que alguém pode estar mais satisfeito aos 80 anos do que quando tinha 40, mas isso é levar em conta o específico. Na hora de generalizar, sejamos menos franciscanos. Milhares de pessoas idosas têm a cabeça ótima e estão realizadas, mas se tiverem bom humor, vão dispensar o consolo: pô, melhor idade é provocação.

 O mesmo sobre magros e gordos. Cada um faz o que bem entender com o próprio corpo. Comer com liberdade é um direito e ninguém tem que se sacrificar para atender a um padrão estético, mas que ser magro é melhor do que ser gordo, é.

Pra saúde é melhor, pra se vestir é melhor, pra se locomover é melhor, pra dançar é melhor. Não quer dizer que um gordo não seja feliz. Geralmente, são felizes à beça, mais do que muito varapau.

 Mas se fosse possível escolher entre ser magro e ser gordo sem nenhum efeito colateral de felicidade ou infelicidade, sem nenhum esforço, só  abracadabra, todo mundo iria querer ser magro, assim como todo mundo preferiria se cristalizar entre os 30 e os 50 anos. Eu acho. A não ser que eu esteja louca, o que é uma hipótese a considerar.

Porém, melhor que tudo é ser gente fina. Finíssima. Isso nada tem a ver com a tendência atual de ser seca, de parecer um esqueleto  ambulante. Gente fina é outra coisa.

Gente fina é aquela que é tão especial que a gente nem percebe se é gorda, magra, velha, moça, loira, morena, alta ou baixa. Ela é gente fina, ou seja, está acima de qualquer classificação. Todos a querem  por perto. Tem um astral leve, mas sabe aprofundar as questões quando necessário. É simpática, mas não bobalhona. É uma pessoa direita, mas não escravizada pelos certos e errados: sabe transgredir sem agredir.

Gente fina é aquela que é generosa, mas não banana. Te ajuda, mas permite que você cresça sozinho. Gente fina diz mais sim do que não, e faz isso naturalmente, não é para agradar. Gente fina se sente  confortável em qualquer ambiente: num boteco de beira de estrada e num  castelo no interior da Escócia.

Gente fina não julga ninguém – tem opinião, apenas. Um novo começo de era, com gente fina, elegante e sincera. O que mais se pode querer?

Gente fina não esnoba, não humilha, não trapaceia, não compete e, como o próprio nome diz, não engrossa. Não veio ao mundo pra colocar areia no projeto dos outros. Ela não pesa, mesmo sendo gorda, e não é leviana, mesmo sendo magra.

Gente fina é que tinha que virar tendência. Porque, colocando na balança, é quem faz a diferença.

 

   Fonte: Jornal “Zero Hora” nº. 15763, 19/10/2008

 

 

José Angelo Leite Pinto – Poesia em imagens

José Angelo Leite Pinto, natural de Feira de Santana, Bahia. Tem formação acadêmica superior e atuou, por muitos anos, como professor de ciências e biologia; é membro de várias entidades nacionais na área das ciências biológicas.

Ainda garoto, com uns 10 anos de idade, começou a utilizar uma câmera Rolleiflex do seu pai, que sempre gostou de fotografar, apesar de ser daqueles que, às vezes, até o dedo ficava registrado nas fotos, embora sempre tivesse sua câmera por perto. Isto lhe despertou uma curiosidade e vontade cada vez maior de fotografar.

Interessou-se por variadas técnicas de fotografia através de livros e revistas, e sempre se exercitando nesta câmera Rolleiflex, ganhou de presente de aniversário uma câmera Yashica-D de filme 120mm, passando a fazer experiências fotográficas com fundos, luzes, variações de diafragma, velocidade, etc.

Ainda garoto, fez um curso de revelação em câmera escura preto & branco, montou um pequeno laboratório e adaptou um projetor de slides para ser o ampliador, já que um ampliador profissional custava muito caro. Sua mãe Profª. Bernadete Pinto, disponibilizou um pequeno quarto nos fundos da casa onde moravam, para que montasse seu laboratório fotográfico e, no meio dos tanques de revelador, fixador, varais, etc. começou a exercitar incansavelmente a arte da fotografia.

Já na universidade no final da década de 70, fez um curso de extensão em Microfotografia, produzindo fotografias e slides para os laboratórios de biologia, zoologia, botânica e geociências. Exercitou como mergulhador, filmagem em formato Super-8 e fotografia submarina, utilizando equipamentos Minolta, quando participava de viagens de estudo para coleta de exemplares para os laboratórios da universidade. Também trabalhou durante anos no Observatório Astronômico Antares, onde atuou na área de fotografia astronômica através de câmeras analógica Pentax 35mm e digital CCD acopladas aos telescópios.


Conhecedor de aplicativos (softwares) de tratamento e manipulação de imagens, com o advento das câmeras digitais, passou a trabalhar com equipamentos digitais Nikon e Sony, com os quais fotografa para ilustrações de livros, catálogos, outdoors, cartazes, folders, web sites, etc.

Participa periodicamente de concursos e exposições de fotografia a nível nacional e internacional, exerceu o cargo de Diretor Secretário do Sindicato dos Fotógrafos Profissionais de Feira de Santana e atualmente é Presidente do Clube de Fotografia Gerson Bullos, filiado à Confederação Brasileira de Fotografia.


Em 2006 participou do Concurso Fotográfico da Revista Trade em Miami, Florida; em 2007 da XV Bienal de Arte Fotográfica Brasileira em Cores; em 2008 da Mostra de Fotografia “Panorama 2008” do Museu de Arte Contemporânea Raimundo de Oliveira em Feira de Santana; em novembro de 2008 representou o Brasil, junto com mais dois fotógrafos de Feira de Santana na 39ª Exposition Internationale D’Art Photographique e do 6º Salon d’Auteurs sur Invitation na França, além de algumas exposições virtuais em Lisboa e Budapest.

Se considera um fotógrafo amador em constante evolução e amante da fotografia.


“Fotografar é fazer poesia através de uma imagem.
O poema não é feito de letras, mas das cores que ficam no papel”

Observação: Postado originalmente no blog “Leni David – De tudo um pouco” , em 16/09/2009 às 14:29h

 

Poemas de Jorge Araújo

 

Munição e víveres

 

(fragmentos)

I

não desvenda, nem deslinda

o poeta inquieta-se ainda

  

III

contígua ferida

a morte

desnomeia a vida

 IV

tempo, espaço, memória

O homem

Será isca da história?

 

V

solidão, se ainda não disse

não  é descobrir-se e só

mas não descobrir-se

  

VIII

ai ai caralho

como viver

dá trabalho

 

(Jorge Araújo)

 

 

 

Poeminha invariável

 

este é o mundo colorido

de todos os circos

todos os horrores

todos os tumores

lindo,lido,visto, ouvido

este é o mundo dolorido

da tv a cores

 

(Jorge Araújo)

 

Livro do poeta baiano Cyro de Mattos é publicado na Itália

 

 

 “Canti della terra e dell’acqua” é uma antologia do poeta Cyro de Mattos. Ela  reune 38 poemas, e foi publicada recentemente pela Editora Romar, de Milão,  (www.romar.editrice.it) com seleção e tradução de Mirella Abriani. Ela  já traduziu para o italiano, autores como Cecília Meireles e Carlos Drummond de Andrade.

Com  esta antologia, Cyro de Mattos alcança a marca de cinco livros de poesia publicados no exterior. Os livros são os seguintes: “Vinte Poemas do Rio”, edição bilíngüe, com tradução do poeta Manoel Portela para o inglês, e “Ecológico,  ambos editados pela Palimage, de Coimbra, Portugal; “Zwanzig Gedichte von Rio und andere Gedichte”, da Projekte-Verlag, Halle, Alemanha, com tradução de Curt Meyer Claso;, e “Poesie della Bahia”, publicação da  Runde Taarn Edizoni, em Gerenzano (Varese), Itália, com tradução de Mirella Abriani.

A antologia “Canti della terra e dell’acqua” é constituída de quatro partes: Os Sinais da Terra, Águas do Rio, Alguns Bichos e Águas do Mar. No livro estão presentes poemas inspirados na infância, rio Cachoeira, bichos e meio ambiente.  Sobre o autor Cyro de Mattos disse Jorge Amado: “Cantor da terra e das águas. Cantor do amor. Pastor de diversos bichos. Tão esplêndido poeta, tão esplêndido ficcionista”. Já a escritora e professora Graziella Corsinovi, da Universidade de Genova, presidente do júri do XII Prêmio Internacional de Poesia Maestrale Marengo d’Oro, assim opinou: “Poesia do mais amplo horizonte histórico e existencial, que evoca mistérios da epopéia brasileira com grande poder de sugestão”.