Poemas de Raymundo Luiz

 

 

 

POÇO

Perder-se.

Ai, perder-se – sim

no próprio mistério do trajeto

das sacudidelas

agônicas

 

SEGREDOS

Tudo guardado

no cofre das reminiscências:

oblíquas pontes

flores no cio

latitudes calosas.

 

Tudo o que já não é o mesmo

e visto pela fresta

da noturna alma 

 

POEMETOS

 

                VI

            P/ Elieser César

Em cada alma

desliza

Indomável barco.

A corda

não amarra

o sussurro das âncoras

 

 

                VIII

Os panos das velas

(anônimos veleiros)

seguem no regaço

das cantigas dos ventos.

 

HAICAIS

 

              9

Oiro partido.

Dez mil nuvens de viés.

Sol no poente.

 

           12

Lagarta na folha

Colorida transmutação

efêmeras asas

 

           13

Na noite espessa
vagalumes encandeiam
as veias das florestas.

 

Raymundo Luiz Lopes – Natural de Salvador. Professor da UEFS – Universidade Estadual de Feira de Santana – e um dos seus fundadores. Editor da Revista Sitientibus/UEFS. Coordenador do Programa Interuniversitário para Distribuição do Livro. Membro da Academia Feirense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Feira de Santana. Vice-Presidente da Fundação Carlo Barbosa. Tem vários trabalhos literários publicados em revistas, jornais e via internet. Lançou ‘Gambiarras para o Natal’/conto e ‘ Velas de Arribação’ /poesia. Professor de Tai Chi Chuan. Participa de movimentos culturais e literários.

 

Dia Internacional da Mulher

 

  

Sempre que falo ou escrevo sobre o “dia internacional da mulher”, fico um pouco constrangida; primeiro porque sou contra dias especiais, pois essas datas sempre terminam deturpadas pelo apetite comercial. Segundo, porque as homenagens sempre transfiguram  a imagem da mulher.

 Acredito que os festejos  e homenagens são importantes, sobretudo para que se possa entender o que e o porquê de comemorar a data. Mulheres são seres humanos, pessoas capazes e versáteis. Às vezes são frágeis e medrosas; às vezes se auto-censuram; outras vezes são destemidas e corajosas.

 

Penso nisso porque fico indignada com a discriminação, até mesmo quando exaltam uma mulher que assume um posto importante, como se ela estivesse realizando uma façanha, como se não fosse capaz de chegar até ali, como se fosse um privilégio, um golpe de sorte e não um direito, uma conquista. Existem mulheres que sabem cozinhar; outras que detestam cozinha. Algumas que adoram decorar a casa, outras que não têm o menor jeito. Há mulheres motoristas de caminhão, pilotos de avião, taxistas, garis, pescadoras, faxineiras, professoras, cantoras, atrizes e políticas, no Brasil e em outros países do mundo. Mas também há mulheres que apanham de homens, que são discriminadas no trabalho; mulheres que vivem na rua, mulheres mal-remuneradas, mulheres exploradas, enfim, mulheres maltratadas.

Falam das conquistas de igualdade de direitos entre homens e mulheres, mas isso também pode ser perigoso porque é uma forma de preconceito. O mundo evoluiu. A mulher conquistou seu espaço, apesar da maternidade e das tarefas domésticas  que executa no seu cotidiano; mas ela aprendeu a batalhar, a buscar o que lhe interessa. Essa “igualdade” tão comentada e tida como reconhecida, muitas vezes é discutida e tripudiada, porque na prática as discriminações persistem e são gritantes.

Acredito que esse dia internacional da mulher não deva ser somente um dia de celebração, um dia de festa, mas sobretudo, um dia de reflexão sobre o  papel da mulher  na sociedade atual. Que a comemoração não se restrinja ao almoço ou jantar no restaurante, ao frasco de perfume importado, ao buquê de flores (bem-vindos hoje e em qualquer dia do ano), ao cartão de felicitações ou àquelas exaltações caricaturais tão bem utilizadas pela mídia.

Seria melhor que nos vissem simplesmente Mulheres, assim mesmo, com letra maiúscula. Mulheres conscientes e que se orgulham da sua condição, em casa, no trabalho, na rua, na escola, em todo lugar; mães, filhas, esposas, noivas, mulheres trabalhadoras urbanas ou rurais; motoristas, médicas, cabeleireiras, advogadas, maquinistas, esteticistas, cozinheiras, jornalistas, bancárias, domésticas, donas de casa, floristas, dentistas, manicures, comerciárias, artesãs, enfermeiras, costureiras, empresárias, manequins, mães de santo, baianas do acarajé, bailarinas, faxineiras, santas, loucas, enfim, MULHERES!

 

E nunca é demais lembrar Adélia Prado, uma poeta que admiro – e que não precisa ser chamada de poetisa para que acreditem nisso – porque ela soube resumir em poucas palavras o que a maioria das mulheres sente e pensa. Em seu poema, Com licença poética, ela contesta Drummond replicando o “anjo torto” dos versos do Poema de sete faces, que decretou: “Vai, Carlos! ser gauche na vida”.

O anjo de Adélia é esbelto, toca trombeta e anuncia: “Vai carregar bandeira”. Mas a poeta sentencia: “Cargo muito pesado pra mulher”. Com jeito suave, mas corajoso, os versos de Adélia revelam, além da fragilidade da alma feminina, a força e a determinação da mulher que sabe o que quer:

 “Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou. »

                              (Adélia Prado)

 Observação: As flores são para todas aquelas que pensam mais ou menos assim.

La Nuit des Masques

 

A música Noite dos Mascarados, de Chico Buarque, foi lançada nos anos 60. Ela foi cantada pelo autor com várias parcerias femininas, entre elas, Nara Leão e Elis Regina. O que pouca gente sabe, sobretudo da nova geração, é que a música também foi cantada em francês por Elis Regina, em parceria com Pierre Barouh. Noite dos Mascarados faz parte da trilha sonora do filme “Garota de Ipanema” do diretor Leon Hirszman, lançado em 1967. Já o LP conta com canções, em sua maioria, compostas por Tom Jobim e Vinicius de Moraes, além da participação de Chico Buarque. Mas a gravação de La Nuit des Masques (Noite dos mascarados) com Elis e Barouh foi lançada em 1968, na França, em compacto duplo intitulado Elis Regina em Paris.

Nesse disco, outro clássico da música brasileira, A Noite do meu, também teve sua versão para o francês realizada pelo produtor, compositor e apaixonado pela música e cultura brasileira, Pierre Barouh, sob o título de La nuit de mon amour, que publicarei em breve aqui no blog. Vejam a versão de Noite dos mascarados:

La nuit des masques

Qui êtes-vous?
Si tu m`aimes, tu dois deviner
Aujourd`hui tous les deux on se cache
Derrière nos masques
Pour se demander:
Qui êtes-vous? Dites vite!
Dis-moi à quel jeu tu m`invites
je voudrais me fondre à ta suite
je voudrais qu`on prenne la fuite
Moi, je vagabonde, poète et chanteur
J`ai perdu la ronde qui mène au bonheur
Moi, je cours les routes
Je reste chez moi
L`amour me déroute
Je n`y croyais pas…moi, dans la fanfare
Je porte un drapeau
Modestie à part, je joue bien du pipeau
Je suis si fragile
J`ai dix ans de trop
je suis Colombine
Je suis Pierrot
Mais c`est Carnaval et qu`importe aujourd’hui qui tu es
Demain tout redeviendra normal
Demain tout va finir
laissons le temps courir
laisse au jour sa lumière
Aujourd’hui je suis ce que tu attends de moi
Si tu veux laissons faire, on verra
Peut-être que demain on se retrouvera
Peut-être que demain on se reconnaîtra…